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CRÔNICA – OS FILHOS DA MAROLINHA

fevereiro 19, 2015
Originalmente publicado em 17/02/2015 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 17/02/2015 na página CRÔNICA DO DIA

Depois do carro, J. B. (19 anos) acha o smartphone um item indispensável para que a balada de sexta-feira seja ótima. Este ano, entretanto, viu-se diante de uma escolha difícil. Agora, ele precisa decidir entre abastecer o carro e comprar créditos para o celular.

Ao lado das roupas, S. V. (17 anos) adora tecnologia; tablets e celulares cheios de funções. Já teve cinco aparelhos telefônicos em sua vida e, para ele, tanto a presença nas redes sociais quanto a boa aparência são fatores decisivos no seu “trabalho”. S. V. iniciou a carreira de Mc em 2013. Este ano, entretanto, seus pais não param de repetir que ele precisa arrumar um emprego. Agora, o rapaz passa horas na rua porque o ambiente familiar, de fato, incomoda.

A “famosinha” M. T. (12 anos) possui mais de 2.000 seguidores numa rede social e nunca repetiu o “visu” nas fotos da sua fanpage. Este ano, ela ainda não foi às compras com a mãe porque as prestações da moto estão atrasadas. A mãe dela usa a moto para vender produtos de beleza de porta em porta. O pai de M. T. não mora com elas.

O “pequeno milagre econômico” (mais falso e sorrateiro do que o Milagre Econômico do Regime Militar) sob as asas do qual esses três jovens cresceram, ao que tudo indica, está no fim. Na verdade, toda uma geração chegou ao mundo neste período – um mundo que, lá fora, na Europa, enfrentava uma crise gigantesca. Ironicamente, J. B., S. V. e M. T. cresceram num país governado por irresponsáveis. Passaram anos fundamentais das suas vidas debaixo da eufemística declaração de que a crise inevitável era “só uma marolinha” (talvez, a mais “célebre” das declarações do presidente Lula). Enquanto a crise internacional e a corrupção interna corroíam o Brasil, jovens como estes viviam como playboys da classe emergente. Foram três mandatos, 12 anos, portanto, em que medidas populistas e pesados investimentos em marketing iludiram o povo acerca da verdadeira pressão que vinha de fora.

Este ano, agora, entretanto…

Sem dúvida alguma, a tábua de salvação se apresentou para muitos. No meio dessa barafunda clientelista, assistimos a um aumento na procura pelo ensino técnico e superior. Bem-aventurados aqueles que conseguiram se agarrar a ela e com muita “garra” para seguir até o final.

A menos que J. B., S. V. e M. T. levem uma carreira escolar acima da média, infelizmente, a decepção será catastrófica.

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Texto publicado em 17/02/2015 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2015) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CRÔNICA – A CRISE DA ÁGUA E A OSTENTAÇÃO DA BURRICE

fevereiro 10, 2015
Originalmente publicado em 17/03/2014 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 02/02/2015 na página CRÔNICA DO DIA

Superpopulosa, a cidade de Los Angeles cruza a maior crise hídrica da sua história. Ainda na metade do século passado, a administração pública submetia a população a frequentes racionamentos porque o abastecimento de água tornava-se, a cada ano, insuficiente. Então, o prefeito imaginou uma solução: a água poderia chegar à cidade vinda do Owens Valley. O problema era que um aqueduto só seria construído à custa de muito conflito entre políticos, agricultores e ambientalistas.

O parágrafo acima é atual ou está mais para um argumento de filme apocalíptico ambientado num futuro próximo? Embora o texto se encaixe perfeitamente nas duas classificações, trata-se de um enredo que, além de verídico, é bastante antigo.

As chamadas “Guerras da Água na Califórnia” tiveram início no final do século XIX e não terminaram em 1913 quando o tal aqueduto entre Owens Valley e Los Angeles foi inaugurado. Ainda na década de 1920, os agricultores de Owens Valley tentaram destruir o aqueduto que já exauria as reservas do lugar. As “Guerras da Água”, como é de se imaginar, também abriram espaço, no meio político, para a corrupção e a especulação. Em 1926, conforme muitos técnicos advertiam, o Lago Owens ficou completamente seco. Isto levou à busca de uma série de soluções paliativas e bastante nocivas para a natureza ao longo de todo o século XX. Atualmente, grande parte da água que abastece Los Angeles ainda vem da bacia de Owens, contudo a captação é subterrânea.

Sem dúvida, foi a crise hídrica paulistana que me levou a ler alguns artigos a respeito de como, em determinadas regiões bastante secas dos EUA, principalmente no Sul da Califórnia, recalcitrantes crises de água são enfrentadas desde a virada do século XIX para o XX até aqui. As diversas teorias conspiratórias na imprensa e nas redes sociais também serviram de motivação. Porém, o que mais me atraia enquanto me aprofundava no assunto era um grande filme rodado em Hollywood em 1974.

É sempre emocionante constatar como uma grande nação e, consequentemente, uma “grande cultura” plasmam as suas questões na arte que inventam. O filme a que me refiro foi selecionado pela Biblioteca do Congresso Americano e agora é preservado no “National Film Registry” por figurar entre as obras cinematográficas “culturalmente, historicamente ou esteticamente significantes” para a nação. Decerto, um país está doente quando uma das formas de se debruçar sobre os próprios problemas, a arte, é pobre, descartável, vazia de sentido ou só consegue reproduzir o pensamento na sua forma mais superficial. (Alguém aí conhece um país assim?!)

Curiosamente, a crise hídrica de Los Angeles é a premissa de “Chinatown”, filme do diretor Roman Polanski e do roteirista Robert Towne (a obra tem um Oscar justamente de Roteiro Original). Na trama, Jack Nicholson arrebenta na pele de um clássico detetive “noir”, J. J. Gittes, que se enrosca todo num caso de traição, corrupção e morte em plenas “Guerras da Água na Califórnia”. Vale a pena se divertir com a trama policiesca, vendo ou revendo Chinatown, e descobrir como, de fato, não há nada de novo debaixo do sol. Principalmente, vale a pena constatar o processo utilizado por uma nação que se avalia e que reflete com seriedade mediante a arte cinematográfica.

Uma pátria verdadeiramente “educadora” ressuma o pensamento do seu povo a respeito das grandes questões nacionais. Cada poro está envolvido. Temas importantes, assim, aparecem e enriquecem até mesmo o entretenimento supostamente banal. A reflexão, nestes casos, exterioriza-se nos aspectos mais simples da comunidade quando há, por exemplo, um interesse profundo por um tema como a política – evidentemente, um interesse que vai além do clientelismo e nada tem a ver com uma esperança doentia na troca de favores. O engajamento requer educação, estudo, leitura, reflexão; caso contrário, dá origem a certas aberrações disfarçadas de “vozes autênticas” tal como acontece, aqui no Brasil, com produtos culturais que vão do “favela movie” (modinha de filmes sobre a vida nas favelas), passando pela “música” (?!), rap, funk, até programas de TV como o Esquenta.

Enquanto as grandes questões passam ao largo do “pensamento”, nossos “mcs” (decerto, a mais nova “espécie” de formadores de opinião no Brasil) vivem preocupados com a própria ascensão financeira. Eles cantam a grana, ostentam o consumo que “agora” podem praticar, exibem o sexo pelo qual “agora” conseguem pagar. “Ídolos” que, infelizmente, fazem a “cabecinha” dos brasileiros. A nossa completa ruína no enfrentamento de futuras crises nacionais.

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Texto publicado em 02/02/2015 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2015) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CRÔNICA – NA BARBEARIA

março 31, 2014
Originalmente publicado em 17/03/2014 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 17/03/2014 na página CRÔNICA DO DIA

Quem nunca foi ao barbeiro e, durante a espera, teve que aturar um tiozinho que, triunfante, afirmasse: “no tempo da ditadura, vagabundo não tinha vez”? Daí essa história de Marcha da Família ou coisa que o valha não constituir nenhuma surpresa para mim. Cedo ou tarde, os tiozinhos da barbearia mostrariam a cara.

Não pense, contudo, que eu seja de esquerda. E como simplesmente repudio qualquer manifestação do maniqueísmo, corra para bem longe de mim se você acha que eu e os saudosistas do DOPS nutrimos alguma simpatia. Acredite: é possível não ser marxista e não desejar uma intervenção militar neste país.

Ocorre uma paranoia na sociedade, que se reflete nas redes sociais. Graças à preguiça mental, as pessoas tendem a colocar a esquerda e os militares em lados opostos, como se os roteiros maniqueístas de Anos Rebeldes e O que é isto companheiro? reverberasse ad aeternum nas suas cabecinhas afetadas pela maior emissora de televisão do país. Ora, todas as ditaduras de esquerda, cara-pálida, são também militaristas.

Voltemos à barbearia. Invariavelmente, o barbudo local também estará presente e atento. Não, ele dispensa a navalha e a opinião imperialista dos outros. Ele é professor ou advogado, não importa. Vive bem, mas apara os grisalhos da cabeça com parcimônia e de forma igualitária. Ele discute. Pede que lhe perfumem as barbas de sr. proletário e provoca. Enquanto a conversa esquenta, os tiozinhos escanhoados torcem o nariz.

Positivo. É legítima, a luta contra a opressão. Ótimo! Planejaram a instalação de um regime comunista na época da Guerra Fria, nos anos de 1960 e 1970, e vá lá, uma ideia até razoável. Péssimo, caro sr. proletário, é cogitar, mesmo que de maneira remota, um regime comunista “hoje em dia”!

Por quê?!

Porque chega a ser de um anacronismo e de um cinismo violento. Ora, os despojos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas infectam a Europa exatamente como as famílias sicilianas o fizeram desde o Renascimento. A transformação do socialismo em um estado de terror e corrupção na URSS deixou o seu legado para o mundo: a máfia russa, liderada por ex-agentes da KGB e ex-membros do “Partido”.

Absurdo! E o legado libertário da esquerda? A proteção ambiental? O Greenpeace, por exemplo, não existiria sem a luta de classes.

Capa do livro “Gangue da Chave Inglesa” de Edward Abbey, ilustrado por Robert Crumb. Narrativa das ações de um grupo de ecoterrotistas em Utah, Estados Unidos. Clássico dos anos de 1970.

Capa do livro “Gangue da Chave Inglesa” de Edward Abbey, ilustrado por Robert Crumb. Narrativa das ações de um grupo de ecoterrotistas em Utah, Estados Unidos. Clássico dos anos de 1970.

O Greenpeace, para mim, é uma franquia. A propósito, não passa de uma franquia bem resolvida e honesta. Começou “esquerdinha” com aqueles barbudos do meio-oeste americano e do Canadá. A contracultura e o movimento hippie criaram esses pioneiros (arautos da era romântica do ativismo ecológico) que, logo, brigaram entre si: uns queriam instalar pregos nas árvores para assassinar operadores de motosserra, outros queriam abraçar as sequoias gigantes, cantando odes às deusas da natureza. Ou seja, a mesma dinâmica de sempre: a minha verdade é melhor do que a sua. O Greenpeace e a maioria dos partidos bolcheviques têm uma diferença: o Greenpeace saiu do armário. É uma franquia bem resolvida. Seus ativistas capitalizam até os átomos do corpo ou você não viu quem sairá na próxima capa da Playboy? Ora, as pessoas capitalizam em cima de tudo. Nenhuma ideologia fica livre da máquina registradora.

Infelizmente, havia mais tiozinhos escanhoados do que barbudos no recinto. O professor ou advogado, pouco importa, não acreditava. De onde vinham tantos “reaças”? Um veterano das FEB, no seu andador, atravessava a rua naquele instante.

Daí eu pergunto: socialismo e/ou comunismo é/são opção/ões no mundo de hoje?!

Claro que sim!

Balela! O “castrismo” e o “chavismo” (que náusea!) mete o folclore socialista goela abaixo de todos e controla a opinião pública com mecanismos tão criminosos quanto aqueles empregados por aqui nos anos de 1960 e 70. Na Venezuela, os jornalistas têm duas opções: ou se transformam em inimigos proscritos do regime ou se convertem em títeres (fantoches). Antes de o fracasso mundial do socialismo aparecer externamente à “cortina de ferro”, a ideologia de fato empolgava. Agora, a teoria de Marx e Engels e, claro, as suas diversas formas regurgitadas com sangue e poder estão a serviço de exploradores da boa-fé! Agem como parasitas de multidões pouco ou nada instruídas. Vivem do oportunismo de pessoas instruídas e sedentas pelo seu lugarzinho ao Sol no sistema de poder e corrupção possível, como ocorre na Venezuela. Sob o pretexto de “dividir o pão”, controla-se a padaria toda e, em pouco tempo, só há farinha na mesa da elite política. O resto, nesse abjeto socialismo, é propaganda mentirosa, “cortina de ferro”, corrupção e uma imprensa feita por jornalistas biônicos.

Boa tarde.

Em silêncio, todos esperaram a marcha do veterano da FEB que, apoiado na sua trêmula armação de metal, cruzou o salão na minha direção. Levantei-me, ofereci a cadeira, inventei uma desculpa e caí fora daquele mundo sufocante e dividido.

Enquanto respirava o ar fresco da rua, uma ideia me ocorreu. Com extremo pesar, pensei naquele universo de pessoas que não diverge e tampouco reflete. Os eleitores desqualificados. Aqueles que votam a troco de programas sociais. Não. Não apenas por isso! Claro que não! Existe um messianismo idiota, sincretismo de cristianismo, folclore político, banzo (melancolia afrodescendente), ressentimento social, mil coisas desse tipo, enfim, que clama por uma salvação milagrosa. Nesse caldeirão, qualquer força mal-intencionada, militarista ou bolchevique (as duas coisas também acontecem simultaneamente, vide Cuba, Venezuela e China, três ditaduras militares socialistas) pode se travestir de “Salvador, Messias, Paladino” (lembra o Collor, caçador de marajás?). Para essas pessoas, o mundo fica mais fácil quando dividido entre o bem e o mal.

A essa fraqueza se dá o nome de maniqueísmo. O maniqueísmo é a forma mais reles de pensamento. Dividir a diversidade do mundo em duas categorias únicas é um desrespeito à inteligência de um rato. Preto e branco, homens e mulheres, direita e esquerda. Isso é tudo? E as nuanças? A faixa do cinza?

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Texto publicado em 17/03/2014 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2013) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”