CRÔNICA – A CRISE DA ÁGUA E A OSTENTAÇÃO DA BURRICE

fevereiro 10, 2015
Originalmente publicado em 17/03/2014 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 02/02/2015 na página CRÔNICA DO DIA

Superpopulosa, a cidade de Los Angeles cruza a maior crise hídrica da sua história. Ainda na metade do século passado, a administração pública submetia a população a frequentes racionamentos porque o abastecimento de água tornava-se, a cada ano, insuficiente. Então, o prefeito imaginou uma solução: a água poderia chegar à cidade vinda do Owens Valley. O problema era que um aqueduto só seria construído à custa de muito conflito entre políticos, agricultores e ambientalistas.

O parágrafo acima é atual ou está mais para um argumento de filme apocalíptico ambientado num futuro próximo? Embora o texto se encaixe perfeitamente nas duas classificações, trata-se de um enredo que, além de verídico, é bastante antigo.

As chamadas “Guerras da Água na Califórnia” tiveram início no final do século XIX e não terminaram em 1913 quando o tal aqueduto entre Owens Valley e Los Angeles foi inaugurado. Ainda na década de 1920, os agricultores de Owens Valley tentaram destruir o aqueduto que já exauria as reservas do lugar. As “Guerras da Água”, como é de se imaginar, também abriram espaço, no meio político, para a corrupção e a especulação. Em 1926, conforme muitos técnicos advertiam, o Lago Owens ficou completamente seco. Isto levou à busca de uma série de soluções paliativas e bastante nocivas para a natureza ao longo de todo o século XX. Atualmente, grande parte da água que abastece Los Angeles ainda vem da bacia de Owens, contudo a captação é subterrânea.

Sem dúvida, foi a crise hídrica paulistana que me levou a ler alguns artigos a respeito de como, em determinadas regiões bastante secas dos EUA, principalmente no Sul da Califórnia, recalcitrantes crises de água são enfrentadas desde a virada do século XIX para o XX até aqui. As diversas teorias conspiratórias na imprensa e nas redes sociais também serviram de motivação. Porém, o que mais me atraia enquanto me aprofundava no assunto era um grande filme rodado em Hollywood em 1974.

É sempre emocionante constatar como uma grande nação e, consequentemente, uma “grande cultura” plasmam as suas questões na arte que inventam. O filme a que me refiro foi selecionado pela Biblioteca do Congresso Americano e agora é preservado no “National Film Registry” por figurar entre as obras cinematográficas “culturalmente, historicamente ou esteticamente significantes” para a nação. Decerto, um país está doente quando uma das formas de se debruçar sobre os próprios problemas, a arte, é pobre, descartável, vazia de sentido ou só consegue reproduzir o pensamento na sua forma mais superficial. (Alguém aí conhece um país assim?!)

Curiosamente, a crise hídrica de Los Angeles é a premissa de “Chinatown”, filme do diretor Roman Polanski e do roteirista Robert Towne (a obra tem um Oscar justamente de Roteiro Original). Na trama, Jack Nicholson arrebenta na pele de um clássico detetive “noir”, J. J. Gittes, que se enrosca todo num caso de traição, corrupção e morte em plenas “Guerras da Água na Califórnia”. Vale a pena se divertir com a trama policiesca, vendo ou revendo Chinatown, e descobrir como, de fato, não há nada de novo debaixo do sol. Principalmente, vale a pena constatar o processo utilizado por uma nação que se avalia e que reflete com seriedade mediante a arte cinematográfica.

Uma pátria verdadeiramente “educadora” ressuma o pensamento do seu povo a respeito das grandes questões nacionais. Cada poro está envolvido. Temas importantes, assim, aparecem e enriquecem até mesmo o entretenimento supostamente banal. A reflexão, nestes casos, exterioriza-se nos aspectos mais simples da comunidade quando há, por exemplo, um interesse profundo por um tema como a política – evidentemente, um interesse que vai além do clientelismo e nada tem a ver com uma esperança doentia na troca de favores. O engajamento requer educação, estudo, leitura, reflexão; caso contrário, dá origem a certas aberrações disfarçadas de “vozes autênticas” tal como acontece, aqui no Brasil, com produtos culturais que vão do “favela movie” (modinha de filmes sobre a vida nas favelas), passando pela “música” (?!), rap, funk, até programas de TV como o Esquenta.

Enquanto as grandes questões passam ao largo do “pensamento”, nossos “mcs” (decerto, a mais nova “espécie” de formadores de opinião no Brasil) vivem preocupados com a própria ascensão financeira. Eles cantam a grana, ostentam o consumo que “agora” podem praticar, exibem o sexo pelo qual “agora” conseguem pagar. “Ídolos” que, infelizmente, fazem a “cabecinha” dos brasileiros. A nossa completa ruína no enfrentamento de futuras crises nacionais.

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Texto publicado em 02/02/2015 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2015) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

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CRÔNICA – O PESO DE CADA CORPO

janeiro 25, 2015

guild-food-writers-logoNos últimos anos, entre o Natal e o Carnaval, Júlia se descobria encurralada quando o irmão e a namorada visitavam a família.

Gente muito apaixonada por uma ideia única sempre colocava Júlia em alerta total. O comportamento que ela escolhia para neutralizar fanáticos era a indiferença, fossem religiosos dominicais ou militantes políticos. Estes, aliás, durante a campanha presidencial de 2014, renderam-lhe alguns episódios bem chatos. Nunca, porém, num grau tão delicado. Sendo assim, entre dezembro e fevereiro, Júlia exercitava a força da sua personalidade contra o proselitismo da fome voluntária e da pele esticada e luzidia sobre as proeminências de um esqueleto.

Hábito novo decerto. Júlia se dedicava àquilo, na verdade, desde que a namorada do irmão, Marta, fora apresentada com as suas dietas e o seu umbigo onipresente.

Agora, a grande questão se referia ao efeito da indiferença naquele caso. A militância baseia-se num determinado código gravado num suporte cuja tiragem se aproxima de um número virtualmente infinito de cópias, a rigor, iguais entre si. Quando Gutemberg imprimiu a Bíblia, desmoralizou a indiferença de todas as futuras gerações que, arrancadas de suas camas, escutariam os representantes das Testemunhas de Jeová somente por educação; isto é, no caso do Pentateuco, do Novo Testamento, até mesmo de O Capital, quando a indiferença apenas sonha em se manifestar, já está derrotada. Com o corpo, entretanto, essa relação ainda se encontra indefinida. Muito embora existam corpos em grandes tiragens no mundo, a sua uniformização está longe de se concretizar, o que torna o peso individual e inalienável de cada corpo um argumento favorável ou contrário ao padrão estabelecido; argumento este que, ironicamente, seja negativo ou positivo, alimenta-se da indiferença como o fogo se alimenta do oxigênio.

Por isso, Júlia decidiu se vestir como a cunhada neste verão. A onipresença do umbigo logo chegou aos olhos de Marta e, assim, ela ficou escandalizada porque o umbigo e a gordura abdominal coexistiam entre a cintura baixa da calça e o corte muito curto da blusa escolhida por Júlia. Marta não se vestiu mais daquela maneira. O peso individual de outro corpo a surpreendera e, até o dia de ir embora, ela se manteve confusa em relação à melhor atitude a ser tomada.

Sem opção, apesar de todo aquele poder inflamável, ela adotou a indiferença.

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Texto publicado em 25/01/2015

André Ferrer (2015) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CHARGE – COELHOS

janeiro 21, 2015

CHARGE - COELHOS