Archive for the ‘CONTOS’ Category

CONTO – MATRIX MARIA

janeiro 14, 2015
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Originalmente publicado em 13/12/2014 no grupo CRÔNICAS DE ANDRÉ FERRER (Facebook)

Era o seu momento depois da jornada nos campos dos senhores. Diante da TV, o corpo depositado no sofá remendado (enquanto a pedra virava gás), ele sentia o doce conectar da Matrix. Alguns instantes apenas e o mundo solitário (esse inferno à sua volta) daria lugar ao mundo das boas lembranças.

George Foreman Grill, Ambervision, Ginsu. Qualquer coisa monótona e destituída de sentido contribuía para que o álcool e o produto da sublimação fizessem efeito.

À meia-luz, a bebida gelada guiava-lhe os passos através de um corredor infinito. Era sexta-feira. Em vez de conhaque vagabundo, o Neo dos boias-frias tomava cerveja barata. Tinha essa veleidade peculiar. Esse gosto que, nos festins, tanto chocava os amigos despossuídos.

“Bebida de mariquinha, boiola, morde-fronha” – diziam, todos reunidos e conectados em plena troça; evidentemente, cada qual conectado ao seu respectivo mundo melhor. Também ralhavam do seu gosto pelos filmes de ficção científica; bem maior que o deles pelos filmes do Charles Bronson. Da pedra que sublimavam, por sua vez, nada diziam. Toda burrice calada é unânime.

Era sexta-feira. Naquela, contudo, estava sozinho. Mais do que nunca, precisava se conectar. Ele tinha visto Maria naquela tarde.

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Texto publicado em 13/12/2014 no grupo CRÔNICAS DE ANDRÉ FERRER (Facebook)

André Ferrer (2014) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CONTO – Provocações

fevereiro 11, 2012

Fotograma do clip da canção “Price Tag” da cantora britânica Jessie J (Youtube)

Seems like everybodys got a price

I wonder how they sleep at night*

Jessie J

(*Parece que todo mundo tem um preço/Eu me pergunto como eles dormem à noite)

As duas entraram e a menina que morava naquela casa fechou a porta e assumiu a dianteira. Visto pela primeira vez, o ambiente paralisou a visitante.

— Gabi! Você vai ficar parada no meio da sala?

Inúmeras vezes, ela tinha ficado numa esquina próxima, a pedido da amiga. E também, a pedido de Luciana, Gabi esperara em diversas ocasiões do lado de fora, junto ao portão ou no jardim. Naquela tarde, mal acreditava. O grande suspense em torno da nova residência da amiga chegava ao fim.

— Anda Gabi! — ordenou Luciana, que terminava de cruzar a sala e já dobrava o corredor que as levaria ao quarto. Gabi se moveu

— Estou indo. Estou indo. — A mochila bem ajeitada nas costas.

A casa era linda e adequada. Gabi não ligava tamanha beleza e ordem às queixas e justificativas de Luciana. Gabi prestou atenção. Procurava o mau gosto que não saía do discurso da amiga desde a mudança, mas, curiosamente, nada destoava nas escolhas feitas para a decoração.

No final do corredor, havia um belo tapete. Acima, numa janela voltada para o poente, o dia terminava cor de rosa e agitado. Sua luz fraca e batida pelo vento vibrava no chão e no tapete (filtrada pela cortina branca). Música, risos e cochichos vinham da cozinha e se espremiam entre as paredes do corredor. Nítidas na mistura, de quando em quando, sinetas de louça e talher.

 — Gente na…

— Psiu!

Como se aproximavam da cozinha, Luciana parou diante de Gabi, agarrou o antebraço da amiga e puxou

— Anda logo!

Ainda que Gabi esticasse os olhos, não conseguiria espiar através da porta, que estava aberta. Quando chegou ao quarto, sentia vergonha por ter sido rebocada.

— Olhe, Gabi — fez Luciana —, desde que a minha mãe se meteu naquele doutorado, esta vida se transformou num inferno.

Impaciente, a garota revirava o quarto. Nos cabelos, o rastelo dos dedos cravados até o couro impressionava Gabi, que supôs

— Eu já sei: o dinheiro que o teu pai te dá deve durar exatamente um mês. Acertei?

Luciana tirou as mãos da cabeça e continuou a desarrumar o quarto há pouco impecável.

— Gabi — disse ela. — Eu é que já sei! Venha comigo.

— Pra onde?

— Venha comigo.

As duas saíram. Diante da suíte do pai de Luciana, os ruídos que, através do corredor, chegavam da cozinha, sinalizavam baixa periculosidade. Gabi devia ficar do lado de fora

— Tudo bem? Eu já volto — retoricou a menina que morava naquela casa.

— Luciana.

— Mas o que foi?

— Nós ainda vamos ao shopping?

— Sua boba! — murmurou Luciana. — E o que você acha que eu vou pegar lá dentro?

— Calma… Eu só queria saber. Volte depressa.

Luciana fechou a porta. A curiosidade de Gabi superava o medo de que alguém aparecesse. Era ainda maior, agora, em relação à suíte, do que o fora em relação à casa. Como seria o quarto do casal? Talvez Luciana a deixasse espiar. Mesmo que fosse através de uma fresta. Luciana gostava tanto de correr riscos.

— Eu consegui. Vamos.

— Ao shopping?!

— É.

— Antes, Luciana, eu gostaria de espiar um pouco…

— Eu vigio. Dê uma olhada Gabi. Mas é rápido hein!

A garota colocou o rosto lá dentro e procurou, como de costume, algo que se ligasse às afirmações de Luciana sobre a casa para onde ela se mudara de maneira compulsória. E nada. Quase nada, na verdade, porque uma única coisa destoava no meio de tão impecável arrumação.

Tratava-se de uma peça de roupa masculina, preta, pendurada contra a luz fraca de uma janela. Um dos passadores da calça estava enganchado, no alto, num dos suportes niquelados do closet, que ficava no fundo além da cama.

Gabi olhou para fora, sorriu para a amiga e, porque não acreditasse, voltou a espiar a suíte.

Enfiada até os ombros na fresta, ela teve que abafar o riso com as mãos enquanto comparava o quadro geral, ordenadíssimo, e aquela terrível e incriminadora calça.

— Fique quieta Gabi!

A língua branca e obscena, que era o forro interno de um dos bolsos da calça, pendia e gritava uma escandalosa provocação.

— Temos que ir.

— Obrigada. Pode fechar Luciana.

— Você já matou a curiosidade. Vamos ao shopping.

Logo atrás de Luciana, Gabi pensou na feiura do ato e, uma vez mais, a língua branca e obscena reapareceu, mas, dessa vez, para bronquear-lhe o riso.

— Não seria mais fácil pedir?

— Quando eu morava com a minha mãe “doutoranda” era.

— Sabe de uma coisa Lu? Você reclama demais.

— Tenho motivos de sobra.

— Ora, pense nos presentes que ela vai trazer da Inglaterra.

— Tá certo, bobona. Eu só preciso esperar mais um ano até que ela volte.

— Passa rápido.

— Sim. Mais um ano de provocações nesta casa… Escute.

— São eles na cozinha.

— São. E como eu odeio essa felicidade idiota! Ouça só, Gabi, a música que eles curtem! Uma coisa tremendamente cafona… Aliás, como tudo o que existe nesta casa. Você está ouvindo? Uma provocação atrás da outra. Foi pra isso que eu te trouxe aqui. E agora? Hein? Assim mesmo você discorda de mim?

— Evidentemente.

— Você por acaso está surda?

— Exagero seu. E até que é romântico vai…

— Uma droga!

— Admita…

— Psiu! — fez Luciana, parada, virando-se de repente.

A um passo da cozinha, ela puxou o antebraço da curiosa Gabi que, desta vez, conseguiu espiar um pouco através da porta.

Naquele instante, o casal estava de costas. Eram o pai de Luciana e a sua nova mulher, abraçados. Eles faziam qualquer coisa juntos diante da pia, de um balcão ou, talvez, do fogão. Era difícil saber o quê. A caminho da rua, Gabi pensou muito naquela imagem efêmera e incompleta. Ela conjecturou que, talvez, o casal fizesse algo bastante agradável

— Sim — ela imaginou. — Bastante agradável, mesmo que uma simples omelete.

por André Ferrer

C. Mota, SP, 24 de abril de 2011

Texto revisado em 05 de fevereiro de 2012

CONTO – Cosmetologia do isolamento

janeiro 29, 2012

O velho dormiu na cadeira e escutou os morteiros da guerra nos batuques de uma oficina mecânica vizinha.

— José de Castro Alencar. Furriel Alencar. Muito prazer.

— Eu sou novato em Guiné. Ainda não compreendo porque esses negros que atiram na gente também se matam entre si.

— No Ultramar, você aprende rápido a entender o nosso colonialismo e a se meter no primeiro buraco possível. Amigo, bem-vindo à Madina do Boé. Nosso despertador, aqui, é o rifle do franco-atirador.

Aquele novato de 1970 era de Sintra e falecera numa emboscada em maio do ano seguinte. Volta e meia, esse rapaz habitava os sonhos do Alencar. Parecia muito (de rosto) um inquilino seu, de anos mais tarde, que agora estava preso e se tornara religioso na penitenciária. De vez em quando, esse ex-inquilino enviava folhetos de propaganda evangélica pelos correios

— Cartas. Ultimamente, o convertido prefere as cartas cheias de armadilhas românticas. Charlatão. Logo leva um tiro numa emboscada.

Na oficina mecânica, os pistões de um Volkswagen dispararam as suas metralhadoras contra a tarde e acordaram o seu Alencar, ex-comerciante em Moema, veterano da panificação paulistana.

— Foi o que se deu em África, pensou ele, atordoado,

por causa dos Ingleses, Franceses, Holandeses e, claro, de nós mesmos, os Portugueses, foi o que se deu em África. Com a ideia de civilização e religião (pretextos para saquear), misturamos inimigos mortais dentro do mesmo território e aguardamos até hoje que se matem uns aos outros em solo africano

— Sob as bênçãos da guerra, da fome, da AIDS

(quando acontecia de cochilar na varanda, o jornal sobre as pernas, um fio de baba pendurado no queixo, ele pensava em voz alta e silenciava de maneira alternada)

e tem sido assim por aqui também desde que enfiamos aquela cruz enorme no rabo dos nativos. O implante de civilização destruiu as milenares fronteiras e acordos que já existiam. Transformamos o Brasil numa civilização viável. O Brasil nasceu, cresceu e se transformou numa República, enfim. Civilização, sociedade, cidadania

— Quantas piadas de português! E mais esta: a Democracia não pode existir sem cadeia, mas existe perfeitamente sem justiça.

Naquele momento, um vulto avermelhado apareceu atrás do portão, na calçada oposta, e começou a crescer, tomando a esperada forma feminina, enquanto cruzava a rua.

— Boa tarde.

— Chegou mais cedo hein!

— Alcancei a minha meta — explicou a mulher de vermelho.

Parecia feliz. Conferiu se havia certa correspondência infalível na caixa e, com o envelope bem firme nas mãos, disse

— É dele!

— Dele quem?

— Dele não! Da empresa, seu Alencar. Da empresa de cosméticos para a qual presto consultoria.

— Sei…

— É verdade. Posso dizer ao senhor que estou numa ótima fase.

— Graças a Deus minha filha.

Descompensada, ela chorava e atormentava o mundo. Insuportável nos maus momentos. Quando estava bem, falava sem parar (e atormentava o mundo)

— Tenho grande oportunidade de conquistar o Astra!

Era consultora da Mary Kay. O carro, naturalmente, era rosa choque.

Dayane, a inquilina atual, alugava o anexo. Dividia o corredor externo, a varanda e a caixa da correspondência com o senhorio viúvo, herói da Guerra Colonial Portuguesa, um aposentado que desenvolvera um senso crítico enorme (ranzinzice para quem aguentava e tinha falta de senso crítico). Seu Alencar, naturalmente, desconfiava da Neurolinguística empregada pelos juristas, pastores pentecostais e vendedoras de quinquilharias.

— Até logo, disse a inquilina. Dayane conhecia muito bem as antipatias do veterano. Jamais ousaria dizer novamente alguma frase da grande Mary Kay Ash na presença dele. Num dia em que esta escapou

— Sua atitude determinará sua altitude

o velho se comportou pessimamente. Organizações assim, o Alencar colocava no mesmo nível da PAIGC, do Sendero Luminoso, da Al-Qaeda e das Farc. Menos uma cliente potencial, minha Lady!

— Vai com Jesus, Maria e José

que eu sei muito bem quem é ele! O sujeito que está para sair da cadeia. Bom comportamento… Vai com os diabos, minha Lady! Vai com os diabos!

— Entender a razão… Por que se matam por nossa causa? E nos matam por alguns trocados. Entender pra quê? A desfiguração do diálogo e a morte da comunicação: eis a melhor escolha. Bem melhor que a desfiguração do corpo

(agora, indeciso, as mãos cravadas nas duas rodas laterais)

no final das contas, cada um deve falar de um assunto nesta Babel moderna. É preciso não entender para que ninguém se descubra prisioneiro num domingo ensolarado — amanhã, por sinal, é sábado e o marginal convertido, que morava lá nos fundos e assaltou a minha padaria, vai receber a mulher do tailleur encarnado em dois dias —

(moveu a roda direita e girou a cadeira)

quando é dia de visitas, até mesmo o visitante está um pouco encarcerado e o preso (o “amor de mãe” é incondicional!) experimenta relances de liberdade.

(a rampa que dava acesso à sala de estar era de ferro e lembrava muito as rampas das embarcações utilizadas na guerra vencida na juventude)

— É preciso não entender as razões que levam um velho sobrevivente a perder outra guerra, em outro país, quase no fim da vida. Imagino a Dayane, de vermelho, cheia de pins na lapela, atravessando aquele pátio. Seis meses atrás, começou a ler os panfletos do marginal que me colocou nesta cadeira. O antigo inquilino. Sim. O desentendimento é mais necessário porque as emboscadas simplesmente não têm lógica

(no meio da sala, existia um velho tapete prendedor de rodas)

— Bandido.

Apesar das grades (e das tatuagens naïf), deve persistir a dúvida sobre quem está fora e quem está dentro. O conteúdo mais profundo das almas humanas dificilmente se expressa de verdade em qualquer encontro. Na superfície, uma confusão real: encontros ou desencontros? O fato é que só servem à cosmetologia do isolamento. Esse terrível isolamento no qual cada homem ou mulher precisa se instalar nos dias de hoje.

por André Ferrer

C. Mota, SP, 22 de janeiro de 2012