CRÔNICA – O PESO DE CADA CORPO

guild-food-writers-logoNos últimos anos, entre o Natal e o Carnaval, Júlia se descobria encurralada quando o irmão e a namorada visitavam a família.

Gente muito apaixonada por uma ideia única sempre colocava Júlia em alerta total. O comportamento que ela escolhia para neutralizar fanáticos era a indiferença, fossem religiosos dominicais ou militantes políticos. Estes, aliás, durante a campanha presidencial de 2014, renderam-lhe alguns episódios bem chatos. Nunca, porém, num grau tão delicado. Sendo assim, entre dezembro e fevereiro, Júlia exercitava a força da sua personalidade contra o proselitismo da fome voluntária e da pele esticada e luzidia sobre as proeminências de um esqueleto.

Hábito novo decerto. Júlia se dedicava àquilo, na verdade, desde que a namorada do irmão, Marta, fora apresentada com as suas dietas e o seu umbigo onipresente.

Agora, a grande questão se referia ao efeito da indiferença naquele caso. A militância baseia-se num determinado código gravado num suporte cuja tiragem se aproxima de um número virtualmente infinito de cópias, a rigor, iguais entre si. Quando Gutemberg imprimiu a Bíblia, desmoralizou a indiferença de todas as futuras gerações que, arrancadas de suas camas, escutariam os representantes das Testemunhas de Jeová somente por educação; isto é, no caso do Pentateuco, do Novo Testamento, até mesmo de O Capital, quando a indiferença apenas sonha em se manifestar, já está derrotada. Com o corpo, entretanto, essa relação ainda se encontra indefinida. Muito embora existam corpos em grandes tiragens no mundo, a sua uniformização está longe de se concretizar, o que torna o peso individual e inalienável de cada corpo um argumento favorável ou contrário ao padrão estabelecido; argumento este que, ironicamente, seja negativo ou positivo, alimenta-se da indiferença como o fogo se alimenta do oxigênio.

Por isso, Júlia decidiu se vestir como a cunhada neste verão. A onipresença do umbigo logo chegou aos olhos de Marta e, assim, ela ficou escandalizada porque o umbigo e a gordura abdominal coexistiam entre a cintura baixa da calça e o corte muito curto da blusa escolhida por Júlia. Marta não se vestiu mais daquela maneira. O peso individual de outro corpo a surpreendera e, até o dia de ir embora, ela se manteve confusa em relação à melhor atitude a ser tomada.

Sem opção, apesar de todo aquele poder inflamável, ela adotou a indiferença.

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Texto publicado em 25/01/2015

André Ferrer (2015) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

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3 Respostas to “CRÔNICA – O PESO DE CADA CORPO”

  1. Grimaulde Gomes Says:

    Isso me faz lembrar de duas primas que eu tenho. Uma bem gorda e uma bem magrinha. A bem gorda sempre procura imitar a magra no seu modo de vestir, e o que para uma é um sensual shortinho, para outra é um grotesco e enorme saco de embalar carne.

  2. João Paulo Says:

    André, sou seu fã cara. Você escreve muito, mas muito bem. Gostei muito. Parabéns!

  3. Lucas Says:

    kkkkk muito massa beijos
    ja estou seguindo o blog
    beijos
    http://livro-azul.blogspot.com.br/

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