Archive for janeiro \25\UTC 2015

CRÔNICA – O PESO DE CADA CORPO

janeiro 25, 2015

guild-food-writers-logoNos últimos anos, entre o Natal e o Carnaval, Júlia se descobria encurralada quando o irmão e a namorada visitavam a família.

Gente muito apaixonada por uma ideia única sempre colocava Júlia em alerta total. O comportamento que ela escolhia para neutralizar fanáticos era a indiferença, fossem religiosos dominicais ou militantes políticos. Estes, aliás, durante a campanha presidencial de 2014, renderam-lhe alguns episódios bem chatos. Nunca, porém, num grau tão delicado. Sendo assim, entre dezembro e fevereiro, Júlia exercitava a força da sua personalidade contra o proselitismo da fome voluntária e da pele esticada e luzidia sobre as proeminências de um esqueleto.

Hábito novo decerto. Júlia se dedicava àquilo, na verdade, desde que a namorada do irmão, Marta, fora apresentada com as suas dietas e o seu umbigo onipresente.

Agora, a grande questão se referia ao efeito da indiferença naquele caso. A militância baseia-se num determinado código gravado num suporte cuja tiragem se aproxima de um número virtualmente infinito de cópias, a rigor, iguais entre si. Quando Gutemberg imprimiu a Bíblia, desmoralizou a indiferença de todas as futuras gerações que, arrancadas de suas camas, escutariam os representantes das Testemunhas de Jeová somente por educação; isto é, no caso do Pentateuco, do Novo Testamento, até mesmo de O Capital, quando a indiferença apenas sonha em se manifestar, já está derrotada. Com o corpo, entretanto, essa relação ainda se encontra indefinida. Muito embora existam corpos em grandes tiragens no mundo, a sua uniformização está longe de se concretizar, o que torna o peso individual e inalienável de cada corpo um argumento favorável ou contrário ao padrão estabelecido; argumento este que, ironicamente, seja negativo ou positivo, alimenta-se da indiferença como o fogo se alimenta do oxigênio.

Por isso, Júlia decidiu se vestir como a cunhada neste verão. A onipresença do umbigo logo chegou aos olhos de Marta e, assim, ela ficou escandalizada porque o umbigo e a gordura abdominal coexistiam entre a cintura baixa da calça e o corte muito curto da blusa escolhida por Júlia. Marta não se vestiu mais daquela maneira. O peso individual de outro corpo a surpreendera e, até o dia de ir embora, ela se manteve confusa em relação à melhor atitude a ser tomada.

Sem opção, apesar de todo aquele poder inflamável, ela adotou a indiferença.

_________________________________

Texto publicado em 25/01/2015

André Ferrer (2015) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CHARGE – COELHOS

janeiro 21, 2015

CHARGE - COELHOS

CRÔNICA – A TECNOLOGIA DO MALCRIADO

janeiro 14, 2015
Em Chongqing, China, as calçadas ganharam "sinalização" que separa "viciados em Whatsapp" das outras pessoas, a fim de que os esbarrões e os choque sejam evitados

Em Chongqing, China, as calçadas ganharam “sinalização” que separa os “viciados em Whatsapp” das outras pessoas, a fim de que se evitem os esbarrões e os choques (Fonte: Amusing Planet)

Quando a telefonia móvel começou a se popularizar no Brasil, as pessoas elogiavam a praticidade e os decrescentes gastos no final do mês. Com a concorrência aberta e as empresas ávidas por clientes, os problemas técnicos nem eram assim tão ruins. Queixar-se deles, aliás, até virou uma espécie de charme. O ápice do dia constituía-se em sacar o “tijolão” Nokia ou Samsung, dar uma baforada e reclamar da “falta de antena” diante do maior número de pessoas possível. E se a plateia fosse mesmo grande, na fila do açougue ou na sala de espera da Unimed, aquilo chegava a ser uma epifania.

Reclamava-se muito, mas eu via sinceridade só nas pessoas que conhecia bem e sabia serem donas de uma educação exemplar. Estes “reclamávamos” da invasão e da falta de bom senso. (Uma queixa bastante justa, levando-se em conta que um celular desligado durante as férias ou final de semana só pode significar uma coisa e esta “coisa” está muito longe de ser uma ofensa ao mundo civilizado.) Os outros, a maioria devastadora, não passavam de gente curtindo o “status” como podia.

Pessoas educadas geralmente pedem licença e esperam a mesma coisa dos outros. A educação costumava ser isto: um acordo firmado com o papai e a mamãe na época do jardim de infância. Costumava ser um código praticado tacitamente. Ninguém, entre pessoas educadas, mencionava “A Lei” em voz alta a não ser, é claro, no caso de aparecer um malcriado.

Hoje em dia, chega a ser extenuante vasculhar os arredores em busca de um único olhar cúmplice e reprovador quando algo assim acontece. O malcriado não aparece mais sozinho. Nasce em matilhas. A cumplicidade e a reprovação andam em seu favor.

A tecnologia é necessária e o seu avanço, inevitável. A disposição de novos meios de relacionamento não para. Surgem cada vez mais poderosos e onipresentes. O Whatsapp, por exemplo, está para o bom e velho celular (aquele que só fazia ligações) como uma bomba de nêutrons está para um estalinho de São João. Seus atributos invasivos, contudo, não demoram a causar distúrbios de comportamento e, a meu ver, culpar esses meios é a mais insensata das decisões. Também, falar de limites seria “chover no molhado”. Somente a dor, de acordo com inúmeras filosofias, teria o poder de despertar as pessoas.

Como sempre acontece, a prevenção só é valorizada depois que a doença se instala e muitos abate. A conta bancária dos psicólogos vai engordar e a contraparida desses valorosos profissionais será, ironicamente, muito fundamental (veja bem: eu não escrevi “fácil” e foi de propósito): dar educação aos seus pacientes.

_________________________________

Texto publicado em 14/01/2015

André Ferrer (2015) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”