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CRÔNICA – NA BARBEARIA

março 31, 2014
Originalmente publicado em 17/03/2014 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 17/03/2014 na página CRÔNICA DO DIA

Quem nunca foi ao barbeiro e, durante a espera, teve que aturar um tiozinho que, triunfante, afirmasse: “no tempo da ditadura, vagabundo não tinha vez”? Daí essa história de Marcha da Família ou coisa que o valha não constituir nenhuma surpresa para mim. Cedo ou tarde, os tiozinhos da barbearia mostrariam a cara.

Não pense, contudo, que eu seja de esquerda. E como simplesmente repudio qualquer manifestação do maniqueísmo, corra para bem longe de mim se você acha que eu e os saudosistas do DOPS nutrimos alguma simpatia. Acredite: é possível não ser marxista e não desejar uma intervenção militar neste país.

Ocorre uma paranoia na sociedade, que se reflete nas redes sociais. Graças à preguiça mental, as pessoas tendem a colocar a esquerda e os militares em lados opostos, como se os roteiros maniqueístas de Anos Rebeldes e O que é isto companheiro? reverberasse ad aeternum nas suas cabecinhas afetadas pela maior emissora de televisão do país. Ora, todas as ditaduras de esquerda, cara-pálida, são também militaristas.

Voltemos à barbearia. Invariavelmente, o barbudo local também estará presente e atento. Não, ele dispensa a navalha e a opinião imperialista dos outros. Ele é professor ou advogado, não importa. Vive bem, mas apara os grisalhos da cabeça com parcimônia e de forma igualitária. Ele discute. Pede que lhe perfumem as barbas de sr. proletário e provoca. Enquanto a conversa esquenta, os tiozinhos escanhoados torcem o nariz.

Positivo. É legítima, a luta contra a opressão. Ótimo! Planejaram a instalação de um regime comunista na época da Guerra Fria, nos anos de 1960 e 1970, e vá lá, uma ideia até razoável. Péssimo, caro sr. proletário, é cogitar, mesmo que de maneira remota, um regime comunista “hoje em dia”!

Por quê?!

Porque chega a ser de um anacronismo e de um cinismo violento. Ora, os despojos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas infectam a Europa exatamente como as famílias sicilianas o fizeram desde o Renascimento. A transformação do socialismo em um estado de terror e corrupção na URSS deixou o seu legado para o mundo: a máfia russa, liderada por ex-agentes da KGB e ex-membros do “Partido”.

Absurdo! E o legado libertário da esquerda? A proteção ambiental? O Greenpeace, por exemplo, não existiria sem a luta de classes.

Capa do livro “Gangue da Chave Inglesa” de Edward Abbey, ilustrado por Robert Crumb. Narrativa das ações de um grupo de ecoterrotistas em Utah, Estados Unidos. Clássico dos anos de 1970.

Capa do livro “Gangue da Chave Inglesa” de Edward Abbey, ilustrado por Robert Crumb. Narrativa das ações de um grupo de ecoterrotistas em Utah, Estados Unidos. Clássico dos anos de 1970.

O Greenpeace, para mim, é uma franquia. A propósito, não passa de uma franquia bem resolvida e honesta. Começou “esquerdinha” com aqueles barbudos do meio-oeste americano e do Canadá. A contracultura e o movimento hippie criaram esses pioneiros (arautos da era romântica do ativismo ecológico) que, logo, brigaram entre si: uns queriam instalar pregos nas árvores para assassinar operadores de motosserra, outros queriam abraçar as sequoias gigantes, cantando odes às deusas da natureza. Ou seja, a mesma dinâmica de sempre: a minha verdade é melhor do que a sua. O Greenpeace e a maioria dos partidos bolcheviques têm uma diferença: o Greenpeace saiu do armário. É uma franquia bem resolvida. Seus ativistas capitalizam até os átomos do corpo ou você não viu quem sairá na próxima capa da Playboy? Ora, as pessoas capitalizam em cima de tudo. Nenhuma ideologia fica livre da máquina registradora.

Infelizmente, havia mais tiozinhos escanhoados do que barbudos no recinto. O professor ou advogado, pouco importa, não acreditava. De onde vinham tantos “reaças”? Um veterano das FEB, no seu andador, atravessava a rua naquele instante.

Daí eu pergunto: socialismo e/ou comunismo é/são opção/ões no mundo de hoje?!

Claro que sim!

Balela! O “castrismo” e o “chavismo” (que náusea!) mete o folclore socialista goela abaixo de todos e controla a opinião pública com mecanismos tão criminosos quanto aqueles empregados por aqui nos anos de 1960 e 70. Na Venezuela, os jornalistas têm duas opções: ou se transformam em inimigos proscritos do regime ou se convertem em títeres (fantoches). Antes de o fracasso mundial do socialismo aparecer externamente à “cortina de ferro”, a ideologia de fato empolgava. Agora, a teoria de Marx e Engels e, claro, as suas diversas formas regurgitadas com sangue e poder estão a serviço de exploradores da boa-fé! Agem como parasitas de multidões pouco ou nada instruídas. Vivem do oportunismo de pessoas instruídas e sedentas pelo seu lugarzinho ao Sol no sistema de poder e corrupção possível, como ocorre na Venezuela. Sob o pretexto de “dividir o pão”, controla-se a padaria toda e, em pouco tempo, só há farinha na mesa da elite política. O resto, nesse abjeto socialismo, é propaganda mentirosa, “cortina de ferro”, corrupção e uma imprensa feita por jornalistas biônicos.

Boa tarde.

Em silêncio, todos esperaram a marcha do veterano da FEB que, apoiado na sua trêmula armação de metal, cruzou o salão na minha direção. Levantei-me, ofereci a cadeira, inventei uma desculpa e caí fora daquele mundo sufocante e dividido.

Enquanto respirava o ar fresco da rua, uma ideia me ocorreu. Com extremo pesar, pensei naquele universo de pessoas que não diverge e tampouco reflete. Os eleitores desqualificados. Aqueles que votam a troco de programas sociais. Não. Não apenas por isso! Claro que não! Existe um messianismo idiota, sincretismo de cristianismo, folclore político, banzo (melancolia afrodescendente), ressentimento social, mil coisas desse tipo, enfim, que clama por uma salvação milagrosa. Nesse caldeirão, qualquer força mal-intencionada, militarista ou bolchevique (as duas coisas também acontecem simultaneamente, vide Cuba, Venezuela e China, três ditaduras militares socialistas) pode se travestir de “Salvador, Messias, Paladino” (lembra o Collor, caçador de marajás?). Para essas pessoas, o mundo fica mais fácil quando dividido entre o bem e o mal.

A essa fraqueza se dá o nome de maniqueísmo. O maniqueísmo é a forma mais reles de pensamento. Dividir a diversidade do mundo em duas categorias únicas é um desrespeito à inteligência de um rato. Preto e branco, homens e mulheres, direita e esquerda. Isso é tudo? E as nuanças? A faixa do cinza?

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Texto publicado em 17/03/2014 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2013) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

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