Archive for fevereiro \24\UTC 2013

CRÔNICA – AULA DE DESCRIÇÃO

fevereiro 24, 2013
 
Originalmente publicado em 21/01/2013 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 21/01/2013 na página CRÔNICA DO DIA

 

Há um limite para as paixões humanas quando elas provêm dos sentimentos, 

mas não há limite para aquelas que sofrem 

a influência da imaginação.

Honoré de Balzac

 

A professora pendurou dois cartazes no quadro negro. Casa, riacho e cisnes. Um gato e o seu novelo de lã. O melhor acontecimento da tarde para Luiz Bernardo. Ele estava livre do “Arme e Efetue”.

Aliviado, guardou o caderno de aritmética. O suor da testa escorria para o outro lado, agora, por causa da inversão da cabeça. No próximo ano, de acordo com a sua mãe, ele voltaria ao período matutino. Fabrícia continuaria à tarde. Continuaria por causa da avó, que cuidava dela enquanto a mãe trabalhava. Segundo dissera, os afazeres domésticos rendiam mais para a velha, à tarde, com ela na escola. Ideia estranha, que começava a incomodar Luiz Bernardo.

A sensação que lhe tomava a cabeça também era estranha. O menino costumava ficar invertido até o “limite”. Depois, ele não sabia. Ele tinha medo de descobrir.

No fundo da sala, a imagem de Fabrícia paralisante. O contorno das coisas, devido ao “limite”, já começava a ficar embaçado. Em casa, uma vez, repreenderam-no com inesquecível energia. Perigo enorme se o sangue ocupasse a cabeça por tanto tempo! Ficaria roxo. Desmaiaria. Conforme lembrava, a reprimenda fora desagradável e ajudara-o a fixar o significado de uma porção de palavras.

Toda palavra impressionava-o quando nova. “Limite”, sem dúvida alguma, impressionava-o apesar de já ser uma palavra antiga. Era do ano anterior e a conhecera por causa de um trem que fazia manobras intermináveis e bloqueava o caminho da escola.

— Oh, menino! — Dissera o pai. — Entre no carro. É perigoso! Criança não tem limite. É como este trem a perder de vista…

Então era isso! O que determinava que se visse ou não o fim das coisas era o limite!

Gostaria de usar “limite” na descrição. Endireitando-se, procurou algum motivo para o emprego desejado. Inútil. Nem os pássaros nem a casa davam espaço àquela palavra. No cartaz ao lado, gato e seu novelo, tampouco. Luiz Bernardo adorava escrever. Sentia-se mais à vontade ao compor descrições a partir de figuras do que ao resolver problemas com números. Ele jamais encontrara dificuldade naquele tipo de exercício. Por isso, sentia-se mal. Estava frustrado. Ele não conseguia encontrar uma única frase pertinente às ilustrações na qual figurasse a palavra “limite”.

Olhou para trás e viu no alto da cabeça de Fabrícia como os fios escuros, brilhantes e emparelhados estavam perfeitamente repartidos. Naquele momento, a linda criança também escrevia. Mantinha a cabeça inclinada sobre o caderno.

Luiz Bernardo descobriu, assim, um emprego para a expressão “falta de limites”. O trabalho da mãe de Fabrícia e os argumentos da avó para que a menina continuasse no período vespertino, de fato, aumentavam aquele sentimento estranho, que era desconforto. A sensação de que alguém lhe segurava as costelas quando ele tentava respirar não tinha limites.

 

______________________________

Texto publicado em 21/01/2013 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2013) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

 

ARTIGO – MEDICAMENTO GENÉRICO: a intercambialidade entre medicamento referencial e genérico

fevereiro 1, 2013

555287_320576288061649_667914583_nTrocar o medicamento prescrito por outro “nem sempre com o mesmo princípio ativo” é um procedimento grave. Gostaria, no entanto, de fazer uma distinção nesta postagem: trocar o medicamento prescrito por outro “nem sempre com o mesmo princípio ativo” É DIFERENTE DO QUE ACONTECE COM O INTERCÂMBIO COM MEDICAMENTO GENÉRICO, que é uma ação descrita e regulamentada legalmente (Lei 9.787/99). É possível trocar um medicamento de referência por um genérico desde que a orientação seja feita pelo farmacêutico e não pelo balconista (nem sempre mais comprometido com a ética do que com o “comércio”).

Eficácia

Discutir a eficácia dos genéricos é tão saudável quanto discutir a qualidade de qualquer outro (similar ou de referência). Todos, médicos e pacientes, têm acesso livre à informação de que este ou aquele produto é registrado na ANVISA e que, portanto, passou pelas avaliações de compatibilidade e biodisponibilidade. No mercado nacional, não existe medicamento genérico sem registro. Portanto, a crítica ao intercâmbio tecnicamente respaldado não se sustenta.

Distinções e o caráter multiprofissional

É preciso diferenciar o procedimento tecnicamente respaldado daquele em que o intercâmbio é realizado entre medicamento de referência e similar. Críticas levianas e superficiais feitas diante do paciente levam ao descrédito dos medicamentos genéricos. Uma pena que isso ainda aconteça porque a Lei 9.787/99 foi feita para ajudar este mesmo paciente. Em meio a essa confusão de conceitos, regras e pseudo-regras no que se refere a medicamentos similares, referenciais e genéricos, tenho visto um crescente interesse da classe médica no sentido de estudar e entender as verdadeiras regras do jogo. É um avanço que não depende apenas do farmacêutico visto que a palavra do médico tem um grande peso no processo. Trata-se de uma questão multiprofissional. Se um dos atores desconhece as regras e emite falas distorcidas, a corrente se quebra.

Texto elaborado por André Luiz Ferrer Domenciano, Farmacêutico, Especialista em Farmácia Magistral Alopática.

QUER SABER MAIS? CLIQUE AQUI!

______________________________

André Ferrer (2013) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CRÔNICA – FEIRA

fevereiro 1, 2013
Originalmente publicado em 07/01/2013 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 07/01/2013 na página CRÔNICA DO DIA

Toda semana, um cavalo de batalha. O ponto de partida de uma crônica sempre me pareceu o convívio. Esta pequena cidade, no entanto, desafia-me quando preciso de ideias para um texto. Nas outras onde morei era mais fácil.

Não falo do convívio apenas, mas também dos resíduos que se espalham no entorno do convívio. Uma boa crônica deve ter mais aparas do que qualquer outra coisa. Uma boa crônica só tem

(coragem, audácia, verdade)

leveza se carrega esse tipo de fuligem humana. Outras fontes, infelizmente, são como o petróleo: sabemos da sua finitude, mas não paramos de usar.

Manhã de domingo. Feira. Como pretexto, uma dúzia de tomates e um rolo de sushi. Na macarronada, eu gosto assim: tomate maduro, pitada de curry, pitada de manjerona, água e azeite. Nada de “pomarolas” em plena brainstorm. Na escolha das frutas,

(OK, definitivamente, tomate é fruta)

silêncio monástico

(outro pretexto para vasculhar e apanhar resíduos).

– Blá, blá, blá…

(não, não, isso é particular demais)

– Blá, blá, blá…

(eu passo!)

– Blá, blá, blá…

(irrelevante)

– Blá, blá, blá…

(Yes: falam do Zeca Pagodinho).

Chuchu e beterraba não estavam nos planos, contudo incluí chuchu e beterraba numa salada futura. Os ouvidos apurados. Havia terminado a etapa seletiva. Eu estava decidido a me concentrar na vox populi e, mais tarde, escrever uma crônica.

— Ei, meu chapa: você viu se ele salvou alguém?! Eu não vi. Nem desceu daquela moto invocada. Fita, meu chapa, fita pras câmeras.

— Então, a pessoa não pode ajudar porque é famosa?! Ora!

— Pode sim. Mas que a mão esquerda não saiba o que faz a direita!

Marketing!

— Tudo bem. Hoje à noite no Fantástico a gente vê se o Pagodinho ajudou ou não aquelas pessoas…

— No Fantástico?! Ele vai aparecer no Fantástico! Pronto: já conseguiu o que mais desejava.

— Parem! — disse o dono da banca. — Peço licença a vocês. O senhor, aqui, quer pesar os chuchus! Tenham dó! Cir-cu-lan-do!

Dispersaram. O mais feroz deles reclamou, mas saiu. Vi-o, então, lá na frente, parado no seu Kishimoto, o velhinho de quem eu compraria o meu rolo de sushi. Paguei, disse bom-dia e me arranquei para o outro lado. Na barraca do japonês eu encontraria, no mínimo, um contraponto, um viés qualquer, enfim, uma cereja para o meu bolo.

— Está bravo né! — dizia o velho para o casmurro quando cheguei.

— Imagina seu Kishimoto! No tsunami do Japão muita gente ajudou. No Brasil, quando ajudam, já tem segunda intenção na parada, marketing pessoal, essas coisas… Eu aposto que havia celebridades ajudando o próximo na tragédia japonesa! E também aposto que o povo do seu país, um país respeitoso e disciplinado, jamais falou mal desses famosos que, tocados, abandonaram a sua zona de conforto e saíram em socorro às vítimas. Por acaso, falaram seu Kishimoto?!

— Não sei. Não estava lá – disse o velho. — Eu nunca estive lá. Meu avô chegou de lá em 1934 e eu nasci vinte anos depois em Piracicaba.

______________________________

Texto publicado em 07/01/2013 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2013) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”