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CRÔNICA – NATAL, CHULÉ E MAU HÁLITO

janeiro 6, 2013
Originalmente publicado em 24/12/2012 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 24/12/2012 na página CRÔNICA DO DIA

É tempo de refletir e fazer avaliações? Cuidado. Deixe que as outras pessoas digam como e quanto você mudou. É tarefa das outras pessoas te levar a sério. Desconfie sempre, é claro – elas mentem e se regozijam da desgraça alheia –, e nunca, em hipótese alguma, esqueça a diversão! Divirta-se muito às custas daquilo que os outros acham a seu respeito. Afinal de contas, você não pode fazer isso sozinho. Os instrumentos disponíveis são inadequados. A natureza social do homem incapacitou-o para a perfeita auto-avaliação.

Alguns dias atrás, vi uma entrevista num daqueles programas vespertinos que tratam de assuntos tão variados como o figurino usado pela Kate Middleton na sua última visita ao obstetra, a melhor maneira de se preparar um suflê ou as respostas para os grandes problemas da existência humana. Era um psicólogo.

Naquele início de tarde, enquanto eu almoçava, descobri que o papel do convidado seria explicar e apontar as respostas para um fenômeno que a apresentadora anunciava como “Síndrome do Natal”.

Duas coisas, inicialmente, passaram-me pela cabeça: o drama dos compradores compulsivos e o calvário dezembrino dos procrastinadores.

O tema é tão abrangente! pensei. Por que, afinal de contas, restringi-o àquele par de possibilidades? De qualquer maneira, a ideia de que muitas pessoas adiam diversas ações no decorrer do ano – até se sentirem péssimas em dezembro – batucava na minha cabeça enquanto o especialista, silencioso, apenas sorria para a apresentadora. Logo senti que por mais imprecisa e abrangente pudesse ser aquela “síndrome”, todos os seus componentes giravam em torno de um centro: a ideia de mudança.

Em seguida, o homem começou a falar e o tema foi delimitado como eu esperava: da forma mais geral possível. Síndrome do Natal se referia à tristeza ou à alegria excessiva que as pessoas manifestam nesta época do ano.

Devo dizer que a entrevista atendeu as minhas expectativas – naturalmente sempre pessimistas – para um programa como aquele. Decerto: a entrevista foi menos proveitosa para o público do que para o psicólogo. Este, aliás, teve cinco minutos livres no final do bloco e propagandeou a sua clínica. Eu, que já tenho há tempos o hábito saudável de escapar da esmagadora obrigação de ser feliz em dezembro, terminei a minha refeição com a certeza de que estaria são em salvo dentro de alguns dias. Qualquer excesso de felicidade, eu já sei, tem como efeito a multiplicação da tristeza que sempre chega. É inevitável. Pede policiamento e equilíbrio.

Somos uma espécie social. Dependemos do olhar do outro, que nos compara ao príncipe e também ao ogro. A nossa capacidade de auto-avaliação é atrofiada. Como acontece entre o Natal e o Ano Novo, quando tentamos resolver de uma só vez toda a demanda reprimida de auto-avaliação, ficamos extremamente confusos, alternamos alegria hercúlea e tristeza colossal. Nesta época, na mesma velocidade com que mastigamos e engolimos um suculento pedaço de chester, somos capazes de ir de um pólo a outro. A cada ano, entre o Natal e o Ano Novo, um verdadeiro exército de maníaco-depressivos se aprimora.

É decepcionante quando tentamos qualificar e quantificar as mudanças. Na verdade, trata-se de mais uma das nossas ilusões masoquistas, uma vez que nos é impossível observar e classificar as verdadeiras transformações. Gabriel Garcia Marquez tem uma frase muito clara a respeito: ‎”A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam.” Na minha modesta opinião, entre a primeira e a milionésima mudança, esse armário pesadíssimo só avança um milímetro.

Por isso, deixar que os outros percebam como e o quanto conseguimos mudar é saudável. As mudanças devem nos ocupar – ainda assim com senso de humor, distanciamento e tato – apenas depois que alguém as tenha notado e descrito em tom de crítica ou, tanto melhor, de elogio. Verdadeiras ou não, significativas ou não, é engraçado pensar que as mudanças funcionam em nossas vidas como o chulé ou, então, o mau hálito.

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Texto publicado em 24/12/2012 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”