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CRÔNICA – UMA FELIZ GOTA D’ÁGUA

dezembro 29, 2012
Nem bem foi inaugurada em Salvador, no último dia 19, estátua de Jorge Amado é depredada

Nem bem foi inaugurada em Salvador, no último dia 19, estátua de Jorge Amado aparece depredada

Quando tudo começou em Porto Seguro, as noções de propriedade pública e privada se confundiam. O que importava para a cruz e a espada era deixar a marca do império português em cada vivente ou mineral antes que o fizessem os espanhóis. Tempos depois, as atenções de novo se voltaram para a Bahia e a região cacaueira sofreu semelhante confusão. A figura meio privada meio estatal do coronel apresentava-se como a personificação híbrida desses dois conceitos que, infelizmente, ainda teimam em se amalgamar nos dias de hoje.

O desmando é o grande equívoco do setor privado. Na democracia, infelizmente, também os setores públicos podem cometer excessos e, embriagados pelo poder, instrumentam-se com o que há de pior no sistema privado. Fazem-se, assim, as trevas. O estado vira dono das pessoas e da força do seu trabalho. Ninguém tem mais o direito de refletir publicamente.

É muito triste quando uma lição histórica — os vinte anos de ditadura — é esquecida e as pessoas confundem o público e o privado como nos velhos tempos em que a muralha verde significava o grande obstáculo entre a pobreza e o Eldorado.  As piores demandas do espírito humano parecem intactas numa praia virgem recém-descoberta ou numa praça moderna de uma urbe supostamente civilizada.

Admitir que alguém se aproximou tranquilamente de um monumento inaugurado há três dias a fim de cometer vandalismos é bastante difícil para muitos de nós. Inacreditável que ainda falte a mínima noção de propriedade pública na educação familiar. Os limites entre o possuir e o zelar encontram-se embaralhados no interior das pessoas. Um incidente como este do Rio Vermelho, que depredou a estátua do escritor Jorge Amado pode ser terrível, mas também pode ser uma feliz gota d’água se assim o quisermos.

Há poucos dias, li uma notícia aterradora vinda de Manaus. Alunos de uma escola se recusaram a fazer um trabalho sobre cultura afro-brasileira e repudiaram a leitura de um romance de Jorge Amado porque, segundo eles, evangélicos, o texto promoveria o satanismo e as relações homossexuais. Além de Jubiabá, de Amado, e Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, outras obras fundamentais entraram nessa lista neo-inquisitorial. Os estudantes, em protesto, chegaram a montar barracas no pátio da escola numa cruzada insana, anacrônica e preconceituosa que chamou a atenção de lideranças de entidades sociais como a dos Direitos Humanos, o Movimento Religioso de Matriz Africana, a Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Marcha Mundial das Mulheres.

Muito embora factualmente isolados, os dois episódios — a depredação da estátua do escritor em Salvador e a manifestação estudantil no Amazonas — guardam relações estreitas a serem investigadas com cautela e urgência. Líderes radicais devem ficar distantes das nossas instituições políticas e administrativas. Todo e qualquer tipo de lobby fundamentalista devem ser neutralizados antes que exerçam real influência em Brasília, estados e municípios. De fato, seria terrível se descobríssemos tarde demais como andava ameaçada a nossa recém-nascida democracia.

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André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

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CRÔNICA – AS IRMÃS ENIGMÁTICAS

dezembro 15, 2012
Originalmente publicado em 10/12/2012 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 10/12/2012 na página CRÔNICA DO DIA

Nos últimos dias, releio “A hora da estrela” e “A convidada do casamento” para tirar uma teima que, há pelo menos duas décadas, incomoda-me. Clarice Lispector (1920-1977) e Carson MacCulers (1917-1967) nunca me enganaram. Têm almas gêmeas. A forja que as moldou é a mesma.

Contemporâneas, fizeram a recriação literária do pós-guerra só que, ao contrário da maioria dos autores da época, de dentro para fora. Seus personagens representam a barbárie do século XX através da solidão e de uma autoconsciência devastadora. Macabéa e Frances, protagonistas das obras que releio, têm absoluta certeza da sua condição de excluídas.

Na década de 1990, quando descobri MacCullers, eu já conhecia Lispector. Assim, as primeiras páginas de “A balada do café triste” pareceram-me familiares. Uma sensação que, a partir do instante de reconhecimento daquela irmandade de espíritos, passei a recordar e realizar com o impacto de uma epifania.

Epifania é uma palavra difícil. Inadequada, nesta era esquematizadora, à leveza de uma crônica. Pois bem, para o benefício da clareza, ameacemos um pouco a brevidade do texto. Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência de algo.

Sendo assim, quando duas pessoas dividem a mesma epifania, ocorre uma aliança agradabilíssima que, irresponsavelmente, vou chamar de comunhão estética. Fenômeno cada vez mais raro.

A comunhão estética é uma reação em cadeia. Depende muito de uma fagulha inicial, a resposta do outro ao primeiro estímulo. Assim, de acordo com esse critério, a comunhão estética poderia ter cinco níveis de classificação (trata-se, naturalmente, de uma invenção subjetiva minha):

(4) o outro usa detalhes, elementos significativos e emotividade na exposição;

(3) o outro reage com alguns elementos significativos e alguma emoção;

(2) o outro usa elementos superficiais e alguma emoção;

(1) o outro reage com elementos óbvios;

(0) o outro não reage.

O que, afinal de contas, epifania e comunhão estética têm a ver com a minha releitura de Lispector e MacCullers?

Também nos anos de 1990, escrevi um texto a respeito da enigmática irmandade dessas duas escritoras. Eu esperava que o único leitor (sim, único, pois não mostrei para mais ninguém) daquele artigo atingisse, pelo menos, o terceiro nível da escala. Ficou no primeiro. Disse lugares comuns a respeito de “literatura feminina” e, ainda por cima, interpretou o meu texto como um libelo contra a brasileira que eu acusava de imitar a norte-americana. Um horror de distorção.

Esta semana, descobri um interessante paper na web. Além de comparar as duas autoras, o trabalho emprega “A convidada do casamento”, de MacCullers, para explicar semelhanças.

Epifania: Clarice Lispector traduziu para a Língua Portuguesa a versão dramática de “A convidada do casamento” (um romance de 1946, que a própria MacCullers adaptou para o teatro)!

Conforme eu desconfiava.

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Texto publicado em 10/12/2012 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CRÔNICA – OS LIMITES DO ESTILO

dezembro 1, 2012
Originalmente publicado em 26/11/2012 na página CRÔNICA DO DIA

Originalmente publicado em 26/11/2012 na página CRÔNICA DO DIA

No feriadão da República, revi um clássico dos anos de 1990, a Trilogia das Cores do cineasta polonês Krzysztof Kieślowski: Bleu (no Brasil: A liberdade é azul, 1993), Blanc (A igualdade é branca, 1994) e Rouge (A fraternidade é vermelha, 1994).

Senti-me satisfeito por dois motivos quando a maratona de quase quatro horas chegou ao fim. Primeiro: a Trilogia das Cores não desbotou. Em plena crise que a União Europeia atravessa, os argumentos da série ganham a força analítica e a ironia que só a passagem dos anos pode dar ou tirar de uma obra de arte. Além disso, eu constatei como o meu olhar andava contaminado naquele tempo, vinte anos atrás. A mudança, no entanto, deixou-me feliz.

Em 1994, o que eu esperava de uma trilogia literária ou cinematográfica? Reiteração, continuidade e revelação. Eu simplesmente engrossava o rebanho de consumidores da indústria hollywoodiana. Qualquer expectativa em relação a um filme europeu era exatamente igual àquela que eu tivera diante de cada um dos inúmeros enlatados norte-americanos da minha infância e adolescência. Portanto, não foi à toa que os filmes de Kieślowski causaram-me desconforto.

A especialidade dele foram as sequências. Na Polônia, antes de trabalhar na França, ele produziu trilogias e séries mais extensas para a televisão. Ou seja, até chegar à primazia de Bleu, Blanc e Rouge, Kieślowski aprimorou a sua arte que, a meu ver (felizmente, apesar dos anos que agora me separam dos 1990), explora os limites do estilo.

A Trilogia das Cores foi a última obra do cineasta, que faleceu em 1996. Nela, ocorre uma redução extrema dos pontos de contato entre um episódio e outro. Acontece uma espécie de negação da unidade ou luta desta para se manter ereta pelo menos na forma de sonho ou ideal. Uma vontade boa que, persistente, continua a coser as histórias da trilogia bem como as diferenças históricas dos povos europeus. Uma vontade, em síntese, historicamente frustrada.

O que se espera de uma trilogia literária ou cinematográfica normalmente pode ser resumido em três palavras: reiteração, continuidade e revelação. Poucos artistas, escritores ou cineastas, ousam construir uma série que subverta essa expectativa — a expectativa do receptor enraizado no senso comum. A não ser, é claro, que a série seja desmembrada ainda no roteiro (ou esboço) e cada parte produzida e lançada como obra completa e independente. Neste caso, qualquer entrelaçamento é analisado de maneira diferente daquela da trilogia. Pontos de contato, assim, são interpretados como traços de estilo.

No caso específico da Trilogia das Cores, há tenuidade extrema no entrelaçamento. O segundo filme, Blanc, dá um encontrão no primeiro, Bleu, logo no início (cena do tribunal). Rouge, o último, esbarra no primeiro e no segundo já bem no final (reportagem na televisão sobre o acidente de ferry no Canal da Mancha). E é só.

Temos, por assim dizer, filmes independentes e que carregam o estilo de Kieślowski. O esforço para enxergar a unidade poderia ser então adiado. A ideia de trilogia, provisoriamente suspensa. Desta forma, o expectador entenderia melhor como e o quanto a unidade e a negação da unidade atuam na construção do significado dessa grande obra cinematográfica.

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Texto publicado em 26/11/2012 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”