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CRÔNICA – ISADORA FABER CONTRA A POLITIZAÇÃO EDULCORADA

novembro 22, 2012

Originalmente publicado em 12/11/2012 na página CRÔNICA DO DIA

Assusta-me saber que uma estudante de 13 anos teve, há poucos dias, a casa apedrejada porque opinou – e reivindicou melhorias – a respeito das condições estruturais do seu segundo lar: a escola.

Horroriza-me o viés que o Fantástico adotou na matéria exibida ontem, dia 11, quando mostrou professores e gestores da tal escola reunidos ao redor de uma mesa, como se a “ameaça” não fosse Isadora Faber e a sua página no Facebook, mas um serial killer. Uma professora ouvida na matéria beirava a histeria. O telespectador que ligasse o televisor naquele instante pensaria logo em ameaça de morte por bandido ou traficante.

A minha geração – que, pela aparência na tela do televisor, é a geração da tal professora – cresceu ouvindo que era alienada e, de certa forma, desenvolveu mecanismos compensatórios, ou melhor, uma carapaça frágil e superficial. Na verdade – vamos lá -, um engajamento hipócrita.

Eu procurei acompanhar Isadora Faber durante dois meses. Ela faz a política que qualquer cidadão deveria fazer. A política saudável que se opõe à política partidária: essa grande oportunidade de mudar de vida apresentada aos alpinistas, pretensamente “engajados”, a cada quatro anos.

Apregoam-se os direitos da criança e do adolescente sobre os palanques e, como acontece sempre na política, o ângulo é o mais venal possível: saúde, educação, integridade física. Nunca se abordam temas do “Estatuto” que não estejam no centro das manchetes policiais, isto é, nunca se fala daquilo que não cause comoção em atrações como o Fantástico, o Programa do Ratinho ou o jornal do Datena. É o caso da integridade psicológica – que envolve agressões quase sempre mascaradas no âmbito social – e que apenas é abordada quando está vinculada a uma expressão da moda como “bulliyng”.

A violência sofrida por Isadora é contra o direito de expressão. Ela estaria no centro daquela roda de professores e teria todo o apoio dos gestores caso morasse em outro país. Estaria, sim, se a geração pós-abertura tivesse, de fato, desenvolvido a capacidade de viver na democracia.

“Antigamente, a escola formava cidadãos. Quem era jovem em 1968 integrou a última geração politizada no Brasil. Na minha época, os estudantes eram mais cultos e responsáveis.”

As afirmações acima, na boca de pais e professores, edulcoraram o processo de educação depois da abertura política. O tom era marxista, mas lá no fundo identificava-se a banda militar, a marcha cadenciada da “Família com Deus pela Liberdade” e o jingle do Milagre Econômico “Este é um país que vai pra frente, oh, oh, oh, oh, oh” (ouça a musica)!

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Texto publicado em 12/11/2012 no CRÔNICA DO DIA.

NOTAS: (1) A música chapa-branca “Este é um país que vai pra frente” fez parte da propaganda do governo militar na época do presidente Ernesto Geisel. A versão do link é a do grupo Os Incríveis. (2) A foto no alto é histórica e emblemática. João Figueiredo, o último presidente militar, tenta cumprimentar uma menina em Belo Horizonte, mas ganha apenas uma expressão de enfado além, é claro, da persistente indiferença. A pequena é Rachel Clemens (mais aqui). O fotógrafo é Guinaldo Nicolaevsky. Imagem linda demais!!!

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

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CRÔNICA – CIFRÃO TATUADO NO BRAÇO

novembro 16, 2012

Tão logo apaguei o fogo e a fervura da água cessou na chaleira, eu reconheci a sobreposição de ruídos que, aprisionados entre os edifícios da orla, distraía-me particularmente naquelas madrugadas insones. Da cozinha, percebi a primeira camada de ruídos: alguém que batia uma porta, que acionava ou desligava um alarme, que fazia um motor funcionar. A outra camada de sons — delicada como uma renda — vinha do mar: era o barulho das ondas.

Em Balneário Camboriú, a arquitetura constitui uma verdadeira caixa de ressonância em alguns pontos. O lugar onde eu morava em 1998 tinha essa qualidade acústica.

Da minha sacada, eu podia ver outros insones. Homens e mulheres que ficavam lá fora, sentados em cadeiras de praia iguais à minha, inseguros e reticentes, por terem perdido o sono. Alguns cigarros depois, entravam. À distância, eu observava as suas decididas silhuetas e sentia inveja de tanta coragem enquanto aquelas pessoas, uma a uma, retornavam para um tipo de luta que eu já considerava inútil.

Era início de outubro e estava quente mesmo às três horas da madrugada. No último ano, consolidara-se a minha paixão pelo mate amargo. Nem o calor do verão seria capaz de impedir-me de ter a cuia e a garrafa térmica ao meu lado.

— Eu não sabia que mateavas!

Virei o rosto. Sorri para a namorada do estudante com o qual eu dividia o apartamento. Ela debruçou no alumínio da grade, sorriu e colocou o cigarro aceso entre os lábios.

O fato inusitado queimou-me a língua por isso eu demorei a responder.

— É melhor do que fumar.

— Pois eu mateio e fumo sem dor na consciência.

— O teu namorado não gosta.

Ela sabia que o garoto condenava o tabagismo e, apesar de lageano, também condenava o chimarrão.

— Ele é natureba.

— Põe natureba nisso! Toda manhã, ele come um sanduíche de couve, tomate, pepino, brócolis, pimentão — debochei. — E para beber?! O sujeito vira um copo de liquidificador carregado de leite, cereais e frutas batidas!

— Eu sei. Até parece o André de Biase nas cenas iniciais do Menino do Rio.

— É um filme antigo — eu disse. Queria recuperar o sossego e, instantaneamente, vislumbrei um caminho direto e bastante curto.

Ela tragou e soltou a fumaça. Tinha quase o dobro da idade do rapaz que, além de vegetariano, carregava um sono pontual e regular.

— Você já era grandinho nos anos 80.

— Não tanto quanto a senhora.

— De onde você me conhece?!

Em toda a minha vida, eu nunca tinha visto alguém transmitir tanta certeza de que estava num beco sem saída. A mulher ficou pálida. Jogou o cigarro. Entrou na sala, tropeçou na mesa de centro e voltou a sair. Colocou as mãos no meu braço e, ajoelhada, quis que eu sentisse o seu coração embaixo da camiseta.

— Ele é chato. Se o teu amigo fosse legal, eu já teria contado sobre o meu filho. Sim, ele sabe a minha idade. Sabe que fui casada. Não contei sobre o menino porque o rapaz é chato. Rico, mas chato. Eu só queria mais alguns dias com ele. Tem o feriadão do dia 15 de novembro em Floripa. Eu conto. Sim. Vou contar! Tudo bem?! Amanhã cedo, eu conto. De qualquer maneira, ele saberá por você ou por outro amigo da faculdade. Homem é tudo assim! Uma verdadeira máfia.

Eu não sabia de filho algum. Sabia da idade. Do ex-marido. Sabia, ainda, que era professora e bastante rodada entre a Praia do Canto e o Baturité; que vivia na companhia de surfistas; que, de vez em quando, ela estapeava a macaca atrás dos quiosques da praia; e nada mais. Era isso! Algumas garotas, minhas conhecidas, apenas comentavam sobre o desespero financeiro da mulher. Uma delas, a propósito, numa noite parecida com aquela — pouco antes de me despedir e deixa-la com filosofia de sobra na mente e um travesseiro a lhe separar os joelhos —, não se cansava de perguntar o porquê de alguns rapazes, como eu, serem tão inacreditavelmente espertos a ponto de não se apaixonar.

Coloquei a bomba na boca e senti o amargo agradável do chimarrão. Mais do que nunca, estava acordado. Será melhor para ele, pensei. Livrar-se o quanto antes da pistoleira. Há tempos, eu sabia, a coroa ostentava o status de nora de médico na frente das amigas da orla e o filho do médico recebia lições hedonistas de uma versão ambiciosa e desesperada da Sylvia Kristel. Não. Eu não sabia do menino, mas estava ciente daquele tipo de mulher que rondava a orla. Eu já tinha encontrado algumas variações sobre o mesmo tema no interior do continente — bem longe do mar. Em 98, eu conhecia bem o perigo que as facilidades trazem. Eu evitava o torpor das facilidades. Procurava o caminho mais irregular e cheio de obstáculos possível a fim de manter os olhos acordados e a mente bem lúcida.

Quando amanheceu, tomei um banho e fui vigiar os dois.

Nem o café preto e forte obrigou-me a entrar de uma vez na cozinha. Reinava um silêncio abismal que só foi quebrado pelo liquidificador na velocidade máxima. O herói empertigado. Levantava o copo do aparelho quando a mulher começou a falar. Congelei. O garotão do papai, forte como um badejo, cifrão tatuado no braço, estava no início do gole! Vai se afogar, eu pensei. A mulher, irritada, parou no meio da frase. Dois olhos em cima de mim. Ela pediu licença. Eu, desculpas.

Frustrado, resta-me até hoje imaginar o momento da revelação. Naquela manhã quente de outubro, eu fui tomar o meu desjejum na lanchonete da faculdade minutos antes da minha aula.

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Texto publicado em 29/10/2012 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”