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CRÔNICA – UM POUCO ACIMA DAS CUMEEIRAS

outubro 19, 2012

Originalmente publicado em 15/10/2012 na página CRÔNICA DO DIA

A verdadeira evolução da espécie acontece quando aprendemos a fazer parte da multidão sem que percamos a individualidade. Ser só individualista é ruim. Mais uma ovelha no rebanho, péssimo. Encontrar o equilíbrio entre o coletivo e o individual, entretanto, não tem sido uma tarefa simples para o ser humano. A começar, é claro, pelo abandono do maniqueísmo que impossibilita este achado. Sem equilíbrio, como é ordinário acontecer, ou nos tornamos egoístas ou nos transformamos em gado.

A arte do meio-termo, infelizmente, não se acha nos manuais técnicos. Há manuais, decerto, e muitos datam de séculos. Alguns, aliás, desapareceram. Outros quase não chegaram às gerações futuras e, se ocorreu, estão distorcidos pela oralidade. Marcados na rocha e nos pergaminhos, apesar de sagrados – e da incontestável autoridade -, pouco trazem de pragmático no que se refere ao domínio humano do necessário equilíbrio entre o eu e os outros.

Para que servem tais instruções? Para dominar mediante a fascinação e o terror. A arte do meio-termo foi apagada ou, se menos do que isso, foi adaptada à hipocrisia dos poderosos.

Antes e depois da Revolução Francesa, existiram e existem reis e cleros. Depois, com a completa absorção do esclarecimento pelo despotismo, persistiram reis e cleros infinitamente reproduzidos em tipos móveis, em cores e via satélite. O rebanho na outra extremidade da fibra ótica. E as violas – belas violas – recheadas de bolores invisíveis embaixo de filigranas e arabescos feitos de ouro e nácar.

Penso nisto quando vejo excesso de transcendentalismo ou de religiosidade nas pessoas. Fico à espera daquela escorregada porque ninguém conserva a santidade por vinte e quatro horas. Nada mais falso. Nada mais vergonhoso. Nada mais abjeto! A melhor escolha é a sobriedade. Jamais levantar bandeiras insustentáveis. Relacionar-se discretamente com as crenças. Porque, sem demora, surge a contradição.

“Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento”, diz a oralidade ancestral e, repentinamente, bloqueia-me a organização de técnicas.

Ora, quem sou eu para tais prescrições? Um punhado de átomos prestes a se dispersar? Um pastor de dúvidas. Um inocente receptáculo do nada sob o firmamento. É isso que sou, mas nem assim tenho direito de recomendar as regras do bem viver a quem quer que seja. E poderia?! Um naco diante dos séculos. O meu terror, apenas, é maior do que o mundo! Só porque sinto verdadeira gana de compensar o meu fim ordinário, teria o direito de usar esse conhecimento mágico e incerto acumulado em auxílio da espada e do cadafalso para ser alguém um pouco acima das cumeeiras?

Há perigo em supervalorizar o exterior quando não se dá conta de fazer com que o interior acompanhe. Não dá para competir! Melhor fugir aos vexames. Por que poucos, na história da humanidade, conseguiram se garantir externa e internamente.

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Texto publicado em 15/10/2012 no CRÔNICA DO DIA.

Texto publicado em 31/10/2012 no Bandeirantes Online.

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CRÔNICA – MC NEYMAR E O HOMEM DE DEUS

outubro 5, 2012

Originalmente publicado em 01/10/2012 na página CRÔNICA DO DIA

Manhã. O coletivo parou. Se aquele ponto estava praticamente vazio, que eu não me iludisse! Nos próximos, haveria gente o bastante para lotar três ônibus iguais àquele.

Os gatos-pingados embarcaram e um deles — percebi logo — valia por toda uma multidão.

Lembrei-me de Tim Maia, que se declarava um cantor de funk brasileiro no estilo da Motown. Funk! Como assim? É primavera, te amo… trago esta rosa?! Nenhuma relação com o baixo nível dos dias de hoje.

O garoto avançou e ocupou o banco da frente. Camisa regata. CD player. Mochila. Boné. Correntão no pescoço. Tão doutrinado pelo estilo mostruário de camelô que era incompreensível aquela falta dolorosa (para mim e, acredito, para a maioria esmagadora dos passageiros) do acessório mais importante: fones de ouvido!

O funk, como gênero musical, consolidou-se na década de 1960. O jazz, o soul e o rhythm and blues fundamentaram um estilo novo em que a ênfase deixava de ser na harmonia e na melodia. Basta ouvir James Brown, o responsável pela fusão dos estilos, para descobrir que o elemento central do funk é o ritmo.

Compulsoriamente envolvido pela batida, ergui o queixo e descobri traços de um corte moicano ao redor do boné. O garoto estava na moda. Eu estava perdido. Calor de assar paciência. Gírias de marginal. Barbarismos linguísticos de sentido duplo. E claro: elogios à fêmea que se abaixava e esfregava o orgulho em algum lugar abaixo da dignidade em troca de ser a preferida do chefão local. Primavera, oh, primavera esquecida! Fiquei com vontade de puxar a corda e descer no próximo ponto.

No Brasil, tudo começou no Rio de Janeiro. Não nas favelas onde o samba imperava nos anos de 1960. O funk de Tony Tornado & Cia flertava com o movimento Black Power, mas não fazia o elogio do crime. Não representava facções. Não transformava as nossas meninas em cachorras. Fora James Brown, havia outras geniais influências externas, Jackie Wilson, Lionel Richie, Stevie Wonder, Marvin Gaye, todos da Motown Records. Havia, enfim, qualidade musical, poesia nas letras e muito respeito à inteligência.

Lá pelas tantas, o Mc Neymar puxou a corda. Graças a Deus: ele desceria. Então, percebi uma fila enorme no ponto seguinte. Impraticável seguir numa lata de sardinha lotada e, ainda por cima, com aquele ruído. Fiquei aliviado.

Enquanto as pessoas embarcavam, observei o garoto. Ele entrou no botequim diante do ponto. Um minuto depois, apareceu sem a mochila. Trazia na mão direita algo que logo reconheci como material de panfletagem. Sob o braço esquerdo dois cavaletes que, habilmente abertos, revelaram o sorriso de um candidato, pastor Fulano de Tal, Nº 12.969, UM HOMEM DE DEUS NA CÂMARA.

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Texto publicado em 01/10/2012 no CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”