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CRÔNICA – PEDAGOGOS DO APOCALIPSE

setembro 30, 2012

Nos anos de 1980, vários amigos do meu pai trabalhavam em banco. Eles tomavam Chivas e Ballantine’s como água. Queijinho e azeitona espetados em palitos na frente do televisor. Invariavelmente, cerveja gelada e alcatra chiadeira no capacete de Gengis Khan, o terrível. As pessoas começavam a me levar a sério (bem, hoje em dia, creio que tal processo ainda não terminou). Eu sofria demais por causa das contradições da idade em que se é velho ou novo demais para várias coisas. Enfim, naqueles festins, inúmeras dessas incoerências rolavam e a pior de todas era o incentivo para que a prole virasse caixa de banco. Uma fase brava pela qual eu passei entre a quinta e a oitava séries.

O meu avô já dizia que empregão, mesmo, era ser funcionário do Banco do Brasil. Mas eu nunca entendi por que o meu pai — justo ele, que tentou uma única vez e partiu para outra profissão — cobrava tanta persistência da minha parte.

Havia, nos anos de 1980, duas linhas de pensamento na educação das crianças: (1) qualquer mau exemplo pode ser redimido com uma imposição e (2) a exposição aos micróbios fortalece o sistema imunológico. Estávamos na era Reagan. Longe, ainda, dos anos politicamente corretos da próxima década. Nem por isso, tornei-me um burocrata materialista, preconceituoso, arrivista, alcoólatra, fumante, machista, dono de uma noção distorcida de cultura, sociedade e liberdade apesar de tudo que vi e ouvi. Tanto os micróbios como as imposições que em nada combinavam com os exemplos serviram para afinar o meu senso de equilíbrio. Pode apostar.

A Hebe (Deus a tenha!) e os seus paetês apresentavam as primeiras duplas sertanejas fakes na telinha. Ícone do novorriquismo desde a época em que ser caixa de banco era o mesmo que vencer na vida, Hebe não me atraia. Eu gostava do Faustão no revolucionário Perdidos na Noite; do Tatá e do Escova. Eu adorava Dallas (cobra engolindo cobra). Punk. New wave. Tinha descoberto Boys don’t cry do The Cure. Já estava grandinho para a maioria dos vícios da infância. Nem por isso, trocava-os pelos novos atrativos da pré-adolescência e do convívio cada vez mais eloquente com os adultos.

Anos antes, aliás, eu já caía na vida. Bandeirantes tinha um point familiar na Avenida Comendador Luiz Meneguel: a quitanda da dona Carmem Fujii. Quem conheceu lembra a maneira como a proprietária recebia os fregueses. Era simpática. As crianças, como eu, adoravam as vitaminas e as guloseimas. O meu pai era frequentador diário. Toda semana, ele me levava depois das 18:00 horas. Uma farra! Eu bebia um copo de vitamina e sentava num daqueles bancos altos enquanto os adultos conversavam sobre o saque Jornada nas Estrelas do Bernardo, a inflação galopante ou o tombo hípico do Figueiredo. Com cara de cínico entendedor, eu fazia pose, virava outro gole, fumava um cigarrinho da Pan. Tudo na maior inocência. Repito, bebia, fumava e discutia a política suja federal, estadual e municipal e nem por isso adotei a bebida, o tabaco ou a canalhice na vida adulta. Ou seja, eu contrariei todos os pedagogos de hoje em dia — os pedagogos do Apocalipse. A não ser, claro — graças a Deus —, no que se refere ao cínico entendimento das coisas. Melhor dizendo: contrariei, também, nesse quesito. Depois descobri! Por que somente o cinismo nos faz reconhecer o equilíbrio.

Aqueles cigarros de chocolate não existem mais. Foram exterminados nos anos politicamente corretos de 1990 pelos mesmos débeis mentais que agora discutem a proibição das obras de Monteiro Lobato. E quanto àqueles lugares e contradições tão poéticos: por que desapareceram das nossas vidas? Por que crescemos? Nada disso. Desapareceram porque muitos de nós, evitando o debate e a educação para o equilíbrio, diminuímos.

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André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

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CRÔNICA – ACONTECE

setembro 21, 2012

Originalmente publicado em 17/09/2012 na página CRÔNICA DO DIA

Há tempos, um fragmento de texto ocorreu-me. Chamei-o, logo, de O baile fantasma. Procurei um vídeo de uma canção antiga no YouTube (Guitar Man do Bread foi a escolhida). Insatisfeito, não só publiquei no Facebook como também no Google Plus. 

Neste sábado, a estranha sensação que me fez escrever, ilustrar e publicar O baile fantasma de uma forma tão impulsiva reapareceu. Ela sempre volta. Acontece, a miúde, em diversos locais e ocasiões.

Desta vez eram as notícias da crise portuguesa e, num dos artigos que eu lia, encontrei uma foto clássica dos anos de 1970, emblema da Revolução finalizadora do salazarismo. A garotinha diante de um fuzil. Os braços erguidos. Um cravo que acabava de entrar no cano da arma pelas mãos da pequena.

Ocorreu-me, assim, a certeza de que da imagem da flor, há muito batida, já era difícil extrair poesia no século passado. Nos dias que avançam, pior ainda! Um poeta não deve buscar a sua arte nas coisas triviais, ainda que belas, e sim no deslocamento dessas coisas. Não existe mais arte na flor do que no estranhamento da flor.

A nostalgia de um fato não presenciado, mas que marcou a minha juventude reacendeu naquele instante. Procurei O Baile fantasma e, em cerca de três horas, desenvolvi-o (*). Sem, no entanto, chegar àquilo que acreditava ser a expressão verdadeira do sentimento.

Na ocasião anterior, bem que eu tentara definir. Chamei de saudade. Não era. E também de nostalgia. Não era. Então, a palavra sehnsucht apareceu numa postagem no Facebook e, instintivamente, percebi que havia encontrado o cano de fuzil perfeito onde depositar o meu cravo.

Na Língua Alemã, trata-se da palavra que mais se aproxima da nossa saudade. Sehnsucht, entretanto, expressa um tipo inespecífico de saudade, ou melhor, um tipo de saudade cujo objeto é inespecífico. Por exemplo: ele pode ser uma época ou evento não presenciado. Ele pode ser alguém que sequer conhecemos. Ele pode servir, diante do enfraquecimento das flores, como arremate de um conto inacabado.

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(*) “O baile fantasma” é um dos onze contos do livro “Oh Glória! E outras histórias de um frio esclarecimento” a ser publicado.

Texto publicado em 17/09/2012 no CRÔNICA DO DIA

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CRÔNICA – HISTÓRIA CURTA E SETEMBRINA

setembro 7, 2012

Hoje, no desfile cívico, ri bastante de um expectador com quem eu dividia o meio-fio. Entre um tanque de guerra, uma ginasta sazonal e um Camaro amarelo cheio gente feliz, o sujeito disparou:

– É, meu amigo, vou-me embora pra Portugal. Aqui todo mundo já venceu na vida!

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André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”