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CRÔNICA – JÁ NÃO EXISTIA

agosto 25, 2012

Crônica originalmente publicada em 20/08/2012 na página CRÔNICA DO DIA

Finalmente, o trabalho na farmácia ajudou-me a descobrir um texto. Foi na quarta-feira. Lembrei-me, então, da necessidade de entregar esta crônica (parece-me, no entanto, que não deixei de pensar na urgência da redação um minuto sequer na última semana) e o texto começou a nascer enquanto eu atendia àquela senhora.

Ela devia ter uma casinha humilde e bem arrumada. Tricô e crochê no dormitório. Um nicho no corredor — o espaço dos boletos bancários, das queixas e da Nossa Senhora. Na sala de estar, entretanto, não devia faltar o paganismo kitsch e suburbano. Um diligente deus Hermes, um comboio de elefantes hindus coloridos e, entre outras cerâmicas, um galinho do tempo disposto à direita do televisor ligado. Para cada bibelô, uma história dividida com o marido. Há quase trinta dias, ela o visitava no hospital.

— Hoje, meu velho, eu vou à tarde. Logo depois do almoço.

Ao prestar atenção na entrevista, ela parecia fazer esquecer o próprio drama. Indiferente, a velha devia ter o hábito de assistir a todos os programas de televisão que pudesse, desde o amanhecer, como uma espécie de aquecimento para as novelas. Mas até que a psicóloga estrábica, a entrevistada naquele talk show matinal, falava de coisas interessantes a respeito da vida moderna.

— Então era isso?! A felicidade está nas perguntas e praticamente nunca está nas respostas!

O velho ranzinza já não existia por causa da doença. Do mesmo modo, conforme a mulher tinha percebido anos atrás, o marido trabalhador e viril já não existia. Por quê? A vida não passa, mesmo, de uma brincadeira de mau gosto? A vida não é mais que uma sacanagem muito bem urdida?

— Ora, se eu tenho medo de perguntar, imagina de responder!

O namorado criativo e sensível já não existia. Por causa do quê? Do cansaço? Da rotina? Da maturidade? De quem, então, era a culpa? O culpado era ele? Ou a jovem mulher que se empenhara tanto na conquista de um noivado?

— É, doutora, a vida não admite respostas.

De acordo com a psicóloga na TV, a vida moderna e veloz era feita de respiração e perguntas. Nada mais. Enquanto avançava, ela prescindia de solução. As respostas a inviabilizavam.

Nove horas da manhã e a velha caiu em si.

— Eu preciso fazer compras antes da visita — ela devia ter dito ou, pelo menos, foi assim que eu supus (ou a imaginei dizendo) a partir daqueles pedaços de vida que, na quarta-feira, rapidamente, passaram ao largo do meu espírito impressionável e observador.

O balcão da farmácia onde eu trabalho é como a proa de um navio quebra-gelo. Homens, mulheres e crianças trazem aquele aspecto frio e indistinto. As pessoas chegam e, só depois que a brancura monótona encontra a quilha do navio, estala e se fende, alguma coisa aparece a respeito delas. Não há chance, bem entendido, para qualquer detalhe em profundidade. Todo o resto deve ser suposto ou imaginado.

— Eu preciso comprar um barbeador para o velho.

A senhora, enfim, notou que era tarde. Olhou para um retrato na estante. O deus Hermes, o comboio de elefantes coloridos, o galinho do tempo.

A psicóloga era estrábica, mas tinha razão.

Ninguém precisa temer as perguntas se as respostas, boas ou ruins, não guardam qualquer importância.

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Publicado em 20/08/2012  na página CRÔNICA DO DIA.

André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

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CRÔNICA – A VANGUARDA E A ROSA

agosto 12, 2012

ImagemUma fábula de Hans Christian Andersen narra o destino de uma rosa que, cheia de orgulho, ignorava a música de um apaixonado rouxinol. A história é “Uma rosa da campa de Homero” e, já no título, pode-se compreender a razão da tamanha empáfia alimentada pela flor.

Acontece que o pássaro morre de tanto cantar diante da “silente” rosa. Imóvel e alheia, esta adormece enquanto o filho de um mercador sepulta o bravo “cantor” sob as rochas onde também repousa Homero, o cantor da Ilíada, “o maior cantor da terra”.

O castigo da rosa vem na forma de um sonho que se transforma em realidade. Entre peregrinos, um viajante estrangeiro, “um cantor do Norte, da terra das neblinas e das auroras boreais”, arranca a garbosa flor, coloca-a no meio de um livro e a leva para as sombrias terras nórdicas. Aprisionada e ressequida, ela está agora como uma múmia. “O cadáver da flor” descansa na “sua Ilíada”.

Muito mais do que um libelo à humildade, esta fábula defende a renovação das ideias apesar do encarceramento delas pelo código escrito. Ora, se o registro é importante como proteção da memória, o vernáculo sepultado nos livros torna-se um agente mumificador das ideias.

Neste caso, também há uma espécie de orgulho. Aquele que não permite a leitura crítica dos textos clássicos. Aquele que, livre de resistência, impediria a transformação dos estilos de Homero até os dias de hoje. Orgulho intelectual.

Existem, decerto, muitos espíritos assim, tão incapazes de ceder aos apelos transgressores e revolucionários quanto a rosa de Andersen. A sorte é que, através dos anos, os rouxinóis da vanguarda continuam transformando as artes mediante um canto sem limites e consequências. Cedo ou tarde, graças à sua contribuição original, terminam reconhecidos e eternizados pela humanidade.

Em sonho, no meio do livro esporadicamente aberto, a rosa morta por causa do orgulho ouve o seu raptor – e apenas ele – que, também orgulhoso, anuncia: “Eis uma rosa da campa de Homero!”

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André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”