Archive for junho \30\UTC 2012

CRÔNICA – FAZER PARTE

junho 30, 2012

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O bullying pode virar crime. Praticará o delito aquele que “intimdar, constranger, ameaçar, assediar sexualmente, ofender, castigar, agredir ou segregar criança ou adolescente valendo-se de pretensa situação de superioridade”. A comissão de juristas do Senado, que discute o anteprojeto de lei, chama o bullying de “intimidação vexatória”.

Uma vez mais, o Estado interfere no ambiente doméstico onde o despreparo dos pais e as profundas mudanças no desenho estrutural da família contribuem para o fracasso.

O bullying acontece desde sempre e independe do status que recentemente alcançou, no Brasil, de fenômeno midiático. É na infância e adolescência que desejamos fazer parte de um grupo e nos encontramos mais apaixonados por tal ideia. Como se sabe, grandes paixões causam crises e sofrimentos.

A intimidação vexatória é consequência do primeiro contato do ser humano com o poder. Deve, sem dúvida alguma, ser corrigida. É natural que apareça nas relações dos pequenos. Mais natural e saudável, ainda, que desapareça na maturidade.

Cabe aos educadores a detecção do perigo. Ressalto: educadores e não “exclusivamente” professores. É bastante comum atribuir a culpa dos casos de bullying ao ambiente escolar. Pais e mães costumam isentar-se deste e de outros problemas comportamentais dos filhos carregando as costas do professor. Um equívoco, sobretudo neste caso, intimamente relacionado com o desenvolvimento das relações de poder. É em casa, no berço, e não na escola, que esse aprendizado tem início e deve ser vigiado até a completude.

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André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CRÔNICA – GABRIELA NUMA SÓ PERNA

junho 17, 2012

ImageEm Ilhéus, a novidade é observada do interior dos casarões. Através das frestas, o assunto das beatas, lá fora, obsceno, parcamente coberto de chita, desfila sob o céu iluminado. Seu destino é logo ali, nas vizinhanças da mansão do Big Brother Brasil. No Bataclan do Projac – se é que o leitor me entende -, agora tem festa no gueto. Maitê Proença, muito rodrigueana, vai trair José Wilker no gabinete dentário: A vida como ela é. E o Vesúvio do Nacib, quem diria, com ares do Bar da dona Jura! Entremos. O balcão. Uma cortina de tiras coloridas, que abrimos com as mãos de reza, cicia. Um corredor sombrio e fresco. A cozinha. Gabriela Paes, numa perna só, um pé apoiado num joelho, canta. Ela mexe tudo com a colher de pau.

Gabriela, cravo e canela é o décimo quinto romance do escritor baiano. Lançado em 1953. Portanto, são vinte e dois anos que o separam do romance de estreia, O país do Carnaval, de 1931.

Jorge Amado discutiu a sociedade e a política nos seus livros. A obra é engajada. Comunista, o autor militou na vida e no texto. Brigou nas tribunas e na imprensa. Foi deputado. Seus primeiros livros têm páginas inteiras dedicadas ao socialismo: a história para, o libelo passa, a história volta.

A cada lançamento, a escrita de Jorge toca nas questões políticas e sociais com maior sutileza. O escritor panfletário dá lugar ao artífice capaz de disfarçar a defesa de uma tese com a leveza de uma história deliciosa. Na fase em que produziu Gabriela, ele já dominava esse requinte. Quem desejasse o viés político do autor precisaria, doravante, procurar nas entrelinhas.

No cinema e na televisão, as adaptações carecem de profundidade. As licenças e os desvios da obra original tomam dimensões comparáveis as da própria Baía de Todos os Santos. Infelizmente, os alicerces múltiplos de Gabriela darão lugar a uma perna morena – linda, por sinal, mas única -, nessa nova versão da Rede Globo. Gabriela, outra vez, numa perna só – a do erotismo – para quem, é claro, costuma fugir dos livros.

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André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”

CRÔNICA – TODOS SOMOS O DR. KUHN

junho 16, 2012

ImageHá muito romantismo nessa história de revolução. Desde que o primeiro insurgente apareceu na Terra, confundem-se as ferramentas com as motivações.

No caso da Primavera Árabe, havia todos os fatores para que a revolta se espalhasse. No Egito, o sentimento de impotência dentro de um regime autoritário, o desemprego e a marginalização faziam parte do dia-a-dia das pessoas. O Facebook, o YouTube e o Twitter cumpriram o seu papel de ferramenta. As queixas tornaram-se mais urgentes. Acreditar no contrário é repetir a ingênua paixão do mujique pelos tipos móveis.

Para quem já esqueceu, Wael Ghonim, um executivo do Google, mantinha uma página no Facebook chamada “Todos somos Kahled”. Segundo a mítica nascida e propagada em 2010, foi a partir daí que tudo começou. Explicação bem ao gosto da atual postura midiática fundamentada no sensacionalismo e na simplificação.

Ao longo desta semana, pensei no homem de 28 anos, o egípcio Kahled, que morreu espancado depois de publicar vídeos na internet, o suposto estopim do levante contra o governo de Mubarak.

No domingo, dez de junho, o Fantástico apresentou uma matéria em que o médico-obstetra Jorge Kuhn defendeu o parto domiciliar. Na segunda-feira, o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro divulgou que denunciaria o médico. Resultado: em cerca de doze cidades, neste final de semana, teremos a “Marcha do parto em casa”. Programa obrigatório, inclusive, para toda a fauna de aspirantes a prefeito e vereador. Imperdível, de fato, se o sujeito carrega pretensões políticas ou revolucionárias.

Também sou solidário com o dr. Kuhn, que é professor da Universidade Federal de São Paulo. Tenho, entretanto, certo comedimento nas minhas motivações. Na matéria do Fantástico, Jorge Kuhn foi bastante claro: é favorável ao parto domiciliar desde que observadas as condições que caracterizam a gravidez de baixo risco, preconizadas pela Organização Mundial da Saúde e garantidas pelo pré-natal. Eu, particularmente, gostaria que se fizesse uma marcha pelo acesso de todas as gestantes brasileiras ao pré-natal. Inclusive daquelas que nem possuem uma casa onde parir.

No Brasil, as motivações que animam as redes sociais ou são patéticas ou, quando chegam perto da seriedade, carecem de foco.

A marcha do dia 16 (ou 17 em algumas cidades) esconde pontos cruciais da saúde da mulher. Sob o direito de escolha entre hospital e domicílio, existe muito a ser levantado. A questão do pré-natal, por exemplo, foi pouco mencionada nos debates que vi na imprensa e no Facebook. Talvez porque o acesso aos exames, principalmente das mulheres que dependem do Sistema Único de Saúde, signifique um banho de água fria nesse Carnaval temporão.

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André Ferrer (2012) – A reprodução do texto é livre desde que o autor seja referenciado. “Escrever custa tempo, educação e trabalho. Respeite isso.”