Archive for fevereiro \11\UTC 2012

CONTO – Provocações

fevereiro 11, 2012

Fotograma do clip da canção “Price Tag” da cantora britânica Jessie J (Youtube)

Seems like everybodys got a price

I wonder how they sleep at night*

Jessie J

(*Parece que todo mundo tem um preço/Eu me pergunto como eles dormem à noite)

As duas entraram e a menina que morava naquela casa fechou a porta e assumiu a dianteira. Visto pela primeira vez, o ambiente paralisou a visitante.

— Gabi! Você vai ficar parada no meio da sala?

Inúmeras vezes, ela tinha ficado numa esquina próxima, a pedido da amiga. E também, a pedido de Luciana, Gabi esperara em diversas ocasiões do lado de fora, junto ao portão ou no jardim. Naquela tarde, mal acreditava. O grande suspense em torno da nova residência da amiga chegava ao fim.

— Anda Gabi! — ordenou Luciana, que terminava de cruzar a sala e já dobrava o corredor que as levaria ao quarto. Gabi se moveu

— Estou indo. Estou indo. — A mochila bem ajeitada nas costas.

A casa era linda e adequada. Gabi não ligava tamanha beleza e ordem às queixas e justificativas de Luciana. Gabi prestou atenção. Procurava o mau gosto que não saía do discurso da amiga desde a mudança, mas, curiosamente, nada destoava nas escolhas feitas para a decoração.

No final do corredor, havia um belo tapete. Acima, numa janela voltada para o poente, o dia terminava cor de rosa e agitado. Sua luz fraca e batida pelo vento vibrava no chão e no tapete (filtrada pela cortina branca). Música, risos e cochichos vinham da cozinha e se espremiam entre as paredes do corredor. Nítidas na mistura, de quando em quando, sinetas de louça e talher.

 — Gente na…

— Psiu!

Como se aproximavam da cozinha, Luciana parou diante de Gabi, agarrou o antebraço da amiga e puxou

— Anda logo!

Ainda que Gabi esticasse os olhos, não conseguiria espiar através da porta, que estava aberta. Quando chegou ao quarto, sentia vergonha por ter sido rebocada.

— Olhe, Gabi — fez Luciana —, desde que a minha mãe se meteu naquele doutorado, esta vida se transformou num inferno.

Impaciente, a garota revirava o quarto. Nos cabelos, o rastelo dos dedos cravados até o couro impressionava Gabi, que supôs

— Eu já sei: o dinheiro que o teu pai te dá deve durar exatamente um mês. Acertei?

Luciana tirou as mãos da cabeça e continuou a desarrumar o quarto há pouco impecável.

— Gabi — disse ela. — Eu é que já sei! Venha comigo.

— Pra onde?

— Venha comigo.

As duas saíram. Diante da suíte do pai de Luciana, os ruídos que, através do corredor, chegavam da cozinha, sinalizavam baixa periculosidade. Gabi devia ficar do lado de fora

— Tudo bem? Eu já volto — retoricou a menina que morava naquela casa.

— Luciana.

— Mas o que foi?

— Nós ainda vamos ao shopping?

— Sua boba! — murmurou Luciana. — E o que você acha que eu vou pegar lá dentro?

— Calma… Eu só queria saber. Volte depressa.

Luciana fechou a porta. A curiosidade de Gabi superava o medo de que alguém aparecesse. Era ainda maior, agora, em relação à suíte, do que o fora em relação à casa. Como seria o quarto do casal? Talvez Luciana a deixasse espiar. Mesmo que fosse através de uma fresta. Luciana gostava tanto de correr riscos.

— Eu consegui. Vamos.

— Ao shopping?!

— É.

— Antes, Luciana, eu gostaria de espiar um pouco…

— Eu vigio. Dê uma olhada Gabi. Mas é rápido hein!

A garota colocou o rosto lá dentro e procurou, como de costume, algo que se ligasse às afirmações de Luciana sobre a casa para onde ela se mudara de maneira compulsória. E nada. Quase nada, na verdade, porque uma única coisa destoava no meio de tão impecável arrumação.

Tratava-se de uma peça de roupa masculina, preta, pendurada contra a luz fraca de uma janela. Um dos passadores da calça estava enganchado, no alto, num dos suportes niquelados do closet, que ficava no fundo além da cama.

Gabi olhou para fora, sorriu para a amiga e, porque não acreditasse, voltou a espiar a suíte.

Enfiada até os ombros na fresta, ela teve que abafar o riso com as mãos enquanto comparava o quadro geral, ordenadíssimo, e aquela terrível e incriminadora calça.

— Fique quieta Gabi!

A língua branca e obscena, que era o forro interno de um dos bolsos da calça, pendia e gritava uma escandalosa provocação.

— Temos que ir.

— Obrigada. Pode fechar Luciana.

— Você já matou a curiosidade. Vamos ao shopping.

Logo atrás de Luciana, Gabi pensou na feiura do ato e, uma vez mais, a língua branca e obscena reapareceu, mas, dessa vez, para bronquear-lhe o riso.

— Não seria mais fácil pedir?

— Quando eu morava com a minha mãe “doutoranda” era.

— Sabe de uma coisa Lu? Você reclama demais.

— Tenho motivos de sobra.

— Ora, pense nos presentes que ela vai trazer da Inglaterra.

— Tá certo, bobona. Eu só preciso esperar mais um ano até que ela volte.

— Passa rápido.

— Sim. Mais um ano de provocações nesta casa… Escute.

— São eles na cozinha.

— São. E como eu odeio essa felicidade idiota! Ouça só, Gabi, a música que eles curtem! Uma coisa tremendamente cafona… Aliás, como tudo o que existe nesta casa. Você está ouvindo? Uma provocação atrás da outra. Foi pra isso que eu te trouxe aqui. E agora? Hein? Assim mesmo você discorda de mim?

— Evidentemente.

— Você por acaso está surda?

— Exagero seu. E até que é romântico vai…

— Uma droga!

— Admita…

— Psiu! — fez Luciana, parada, virando-se de repente.

A um passo da cozinha, ela puxou o antebraço da curiosa Gabi que, desta vez, conseguiu espiar um pouco através da porta.

Naquele instante, o casal estava de costas. Eram o pai de Luciana e a sua nova mulher, abraçados. Eles faziam qualquer coisa juntos diante da pia, de um balcão ou, talvez, do fogão. Era difícil saber o quê. A caminho da rua, Gabi pensou muito naquela imagem efêmera e incompleta. Ela conjecturou que, talvez, o casal fizesse algo bastante agradável

— Sim — ela imaginou. — Bastante agradável, mesmo que uma simples omelete.

por André Ferrer

C. Mota, SP, 24 de abril de 2011

Texto revisado em 05 de fevereiro de 2012

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CRÔNICA – MAIS EDUCADOS

fevereiro 4, 2012

Estavam na piscina e falavam de Luan Santana.

— A emissora tem um acordo com ele.

— Imagina! O garoto é talentoso. Se você não gosta de música sertaneja, desencana — recomendou a moça irritada. — Fazer comentários desse tipo é sempre desnecessário.

— Ele ainda nem era conhecido e tinha propaganda de Meteoro e não sei o que na Globo — retrucou João Maurício.

Renata, a loirinha pálida do Big Brother Brasil 12, exibiu uma paleta de cores quentes ao pecuarista. Uma, duas, três pinceladas da mais embasada, profunda e conectada opinião. O assunto: mau gosto musical não se discute!

Renata na cozinha, minutos depois, indignada

— Fala demais! Cada um tem seu gosto, caramba!

A cena ocorreu mais ou menos assim, hoje de manhã (04/02/2012), na mansão fake do Boninho. Como a fonte é indireta e a matéria que consultei no Yahoo, tendenciosa, tive que ficcionalizar um pouco o diálogo

(isto aqui é uma crônica e eu preciso conservar 10 por cento, no mínimo, de ficção).

“Mais ou menos”, também, porque a emissora teria cortado no pay-per-view a cena em que Ronaldo, João Maurício e Renata conversavam na piscina. Em canal aberto, segundo fãs patológicos, amigos meus — especialistas no quesito “perda de tempo” (os quais também consultei) —, a cena real dificilmente vai ao ar esta noite (agora, enquanto escrevo, ainda é sábado, dia 04, perto das 19 horas).

Em primeiro lugar: se é perda de tempo, por que o assunto chamou tanto a minha atenção? Óbvio:

— Quando se planeja, nenhuma manobra deverá ser inútil, na estratégia, nenhum passo em vão —

sábias palavras de Chen Hao no livro de Sun Tzu, A arte da guerra (8,00 patacas, em Londrina, Paraná, no Sebo Capricho).

Em segundo lugar (entenda-se digressão), reencontrei uma antiga leitora e comentadora dos meus textos no Facebook, Drika Martins.

Hoje, a Drika postou a sua costumeira e nobre indignação quando o assunto é cultura no Brasil. A mensagem dela trazia a magnífica foto de um palco e uma produção teatral.

(Coloquei a imagem a seguir, abaixo do texto, para não dispersar a leitura. Trata-se de um print-screen da postagem e do comentário que, num instante, lavou a minha alma e trouxe até mim a vontade e as condições necessárias para que eu escrevesse isto aqui. Sobre a imagem, juro que tentei encontrar maiores informações através do Google, além, é claro, dos apelos digitais à Drika, inúteis. Ela já devia estar off-line. Drika, por favor, quando comentar esta crônica, mate a nossa curiosidade!).

Fim da digressão (isto é, a manobra ensinada pelo grande mestre Chen Haooooo já terminou). Sendo assim, voltemos ao assunto —

de acordo com a página da Subsecretaria de Ações Estratégicas (um dos muitos panfletos eletrônicos do Governo Federal) “os jovens da Classe C (ou Nova Classe Média Brasileira), mais educados e conectados, são hoje os formadores de opinião na família e na comunidade”.

Concordo se, no lugar da informação “mais educados”, estivesse “melhor servidos de oportunidades educacionais”. Acesso à educação não é garantia de educação. Dizer o contrário é “forçar a barra” – ou, no caso do Governo, reproduzir incansavelmente o marketing petista de cada dia, hora e segundo.

Quanto ao indefectível “conectados”, o fator “garantia de” abrange um universo remotíssimo.

Poucas pessoas querem ler e refletir na rede. O negócio dessa Classe C (jovenzinha e, a um só tempo, vetusta; com aquele C que, infelizmente, “ainda” não significa “cultural”) é outro.

Há formadores de opinião, certamente… Mas existem tons e sobretons nessa paleta de opiniões. Algumas são matizadas. Muitas, infelizmente, só trazem tintas monocromáticas.

Se aprender, refletir e propagar ideias e conceitos são ações dependentes, na raiz, de um mínimo de conexão (que, antigamente, estabelecia-se ao redor de uma prosaica fogueira, na mesa, durante as refeições, e na escola) nenhuma possibilidade de conexão por si só garante conteúdo, aprendizado e senso crítico (nem a fogueira, nem a pontualidade da ceia, nem as escolas garantiram esses requintes de cultura quando reinavam absolutas). A palavra “conexão” e seus derivados hodiernos devem ser vistos com cuidado. Atrás do termo pode existir um imenso vazio cheio de banalidades.

Por outro lado, “conectar” diferentes assuntos na rede

(a opinião de brothers a respeito de música, militares chineses que morreram há séculos em campo de batalha, uma misteriosa cenografia estrangeira e a Nova Classe Média Brasileira),

desde que, do absurdo inicial, nasça o mínimo de reflexão, pode ser viável.

 

por André Ferrer

C. Mota, SP, 04 de fevereiro de 2012