CONTO – Cosmetologia do isolamento

O velho dormiu na cadeira e escutou os morteiros da guerra nos batuques de uma oficina mecânica vizinha.

— José de Castro Alencar. Furriel Alencar. Muito prazer.

— Eu sou novato em Guiné. Ainda não compreendo porque esses negros que atiram na gente também se matam entre si.

— No Ultramar, você aprende rápido a entender o nosso colonialismo e a se meter no primeiro buraco possível. Amigo, bem-vindo à Madina do Boé. Nosso despertador, aqui, é o rifle do franco-atirador.

Aquele novato de 1970 era de Sintra e falecera numa emboscada em maio do ano seguinte. Volta e meia, esse rapaz habitava os sonhos do Alencar. Parecia muito (de rosto) um inquilino seu, de anos mais tarde, que agora estava preso e se tornara religioso na penitenciária. De vez em quando, esse ex-inquilino enviava folhetos de propaganda evangélica pelos correios

— Cartas. Ultimamente, o convertido prefere as cartas cheias de armadilhas românticas. Charlatão. Logo leva um tiro numa emboscada.

Na oficina mecânica, os pistões de um Volkswagen dispararam as suas metralhadoras contra a tarde e acordaram o seu Alencar, ex-comerciante em Moema, veterano da panificação paulistana.

— Foi o que se deu em África, pensou ele, atordoado,

por causa dos Ingleses, Franceses, Holandeses e, claro, de nós mesmos, os Portugueses, foi o que se deu em África. Com a ideia de civilização e religião (pretextos para saquear), misturamos inimigos mortais dentro do mesmo território e aguardamos até hoje que se matem uns aos outros em solo africano

— Sob as bênçãos da guerra, da fome, da AIDS

(quando acontecia de cochilar na varanda, o jornal sobre as pernas, um fio de baba pendurado no queixo, ele pensava em voz alta e silenciava de maneira alternada)

e tem sido assim por aqui também desde que enfiamos aquela cruz enorme no rabo dos nativos. O implante de civilização destruiu as milenares fronteiras e acordos que já existiam. Transformamos o Brasil numa civilização viável. O Brasil nasceu, cresceu e se transformou numa República, enfim. Civilização, sociedade, cidadania

— Quantas piadas de português! E mais esta: a Democracia não pode existir sem cadeia, mas existe perfeitamente sem justiça.

Naquele momento, um vulto avermelhado apareceu atrás do portão, na calçada oposta, e começou a crescer, tomando a esperada forma feminina, enquanto cruzava a rua.

— Boa tarde.

— Chegou mais cedo hein!

— Alcancei a minha meta — explicou a mulher de vermelho.

Parecia feliz. Conferiu se havia certa correspondência infalível na caixa e, com o envelope bem firme nas mãos, disse

— É dele!

— Dele quem?

— Dele não! Da empresa, seu Alencar. Da empresa de cosméticos para a qual presto consultoria.

— Sei…

— É verdade. Posso dizer ao senhor que estou numa ótima fase.

— Graças a Deus minha filha.

Descompensada, ela chorava e atormentava o mundo. Insuportável nos maus momentos. Quando estava bem, falava sem parar (e atormentava o mundo)

— Tenho grande oportunidade de conquistar o Astra!

Era consultora da Mary Kay. O carro, naturalmente, era rosa choque.

Dayane, a inquilina atual, alugava o anexo. Dividia o corredor externo, a varanda e a caixa da correspondência com o senhorio viúvo, herói da Guerra Colonial Portuguesa, um aposentado que desenvolvera um senso crítico enorme (ranzinzice para quem aguentava e tinha falta de senso crítico). Seu Alencar, naturalmente, desconfiava da Neurolinguística empregada pelos juristas, pastores pentecostais e vendedoras de quinquilharias.

— Até logo, disse a inquilina. Dayane conhecia muito bem as antipatias do veterano. Jamais ousaria dizer novamente alguma frase da grande Mary Kay Ash na presença dele. Num dia em que esta escapou

— Sua atitude determinará sua altitude

o velho se comportou pessimamente. Organizações assim, o Alencar colocava no mesmo nível da PAIGC, do Sendero Luminoso, da Al-Qaeda e das Farc. Menos uma cliente potencial, minha Lady!

— Vai com Jesus, Maria e José

que eu sei muito bem quem é ele! O sujeito que está para sair da cadeia. Bom comportamento… Vai com os diabos, minha Lady! Vai com os diabos!

— Entender a razão… Por que se matam por nossa causa? E nos matam por alguns trocados. Entender pra quê? A desfiguração do diálogo e a morte da comunicação: eis a melhor escolha. Bem melhor que a desfiguração do corpo

(agora, indeciso, as mãos cravadas nas duas rodas laterais)

no final das contas, cada um deve falar de um assunto nesta Babel moderna. É preciso não entender para que ninguém se descubra prisioneiro num domingo ensolarado — amanhã, por sinal, é sábado e o marginal convertido, que morava lá nos fundos e assaltou a minha padaria, vai receber a mulher do tailleur encarnado em dois dias —

(moveu a roda direita e girou a cadeira)

quando é dia de visitas, até mesmo o visitante está um pouco encarcerado e o preso (o “amor de mãe” é incondicional!) experimenta relances de liberdade.

(a rampa que dava acesso à sala de estar era de ferro e lembrava muito as rampas das embarcações utilizadas na guerra vencida na juventude)

— É preciso não entender as razões que levam um velho sobrevivente a perder outra guerra, em outro país, quase no fim da vida. Imagino a Dayane, de vermelho, cheia de pins na lapela, atravessando aquele pátio. Seis meses atrás, começou a ler os panfletos do marginal que me colocou nesta cadeira. O antigo inquilino. Sim. O desentendimento é mais necessário porque as emboscadas simplesmente não têm lógica

(no meio da sala, existia um velho tapete prendedor de rodas)

— Bandido.

Apesar das grades (e das tatuagens naïf), deve persistir a dúvida sobre quem está fora e quem está dentro. O conteúdo mais profundo das almas humanas dificilmente se expressa de verdade em qualquer encontro. Na superfície, uma confusão real: encontros ou desencontros? O fato é que só servem à cosmetologia do isolamento. Esse terrível isolamento no qual cada homem ou mulher precisa se instalar nos dias de hoje.

por André Ferrer

C. Mota, SP, 22 de janeiro de 2012

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