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CONTO – Cosmetologia do isolamento

janeiro 29, 2012

O velho dormiu na cadeira e escutou os morteiros da guerra nos batuques de uma oficina mecânica vizinha.

— José de Castro Alencar. Furriel Alencar. Muito prazer.

— Eu sou novato em Guiné. Ainda não compreendo porque esses negros que atiram na gente também se matam entre si.

— No Ultramar, você aprende rápido a entender o nosso colonialismo e a se meter no primeiro buraco possível. Amigo, bem-vindo à Madina do Boé. Nosso despertador, aqui, é o rifle do franco-atirador.

Aquele novato de 1970 era de Sintra e falecera numa emboscada em maio do ano seguinte. Volta e meia, esse rapaz habitava os sonhos do Alencar. Parecia muito (de rosto) um inquilino seu, de anos mais tarde, que agora estava preso e se tornara religioso na penitenciária. De vez em quando, esse ex-inquilino enviava folhetos de propaganda evangélica pelos correios

— Cartas. Ultimamente, o convertido prefere as cartas cheias de armadilhas românticas. Charlatão. Logo leva um tiro numa emboscada.

Na oficina mecânica, os pistões de um Volkswagen dispararam as suas metralhadoras contra a tarde e acordaram o seu Alencar, ex-comerciante em Moema, veterano da panificação paulistana.

— Foi o que se deu em África, pensou ele, atordoado,

por causa dos Ingleses, Franceses, Holandeses e, claro, de nós mesmos, os Portugueses, foi o que se deu em África. Com a ideia de civilização e religião (pretextos para saquear), misturamos inimigos mortais dentro do mesmo território e aguardamos até hoje que se matem uns aos outros em solo africano

— Sob as bênçãos da guerra, da fome, da AIDS

(quando acontecia de cochilar na varanda, o jornal sobre as pernas, um fio de baba pendurado no queixo, ele pensava em voz alta e silenciava de maneira alternada)

e tem sido assim por aqui também desde que enfiamos aquela cruz enorme no rabo dos nativos. O implante de civilização destruiu as milenares fronteiras e acordos que já existiam. Transformamos o Brasil numa civilização viável. O Brasil nasceu, cresceu e se transformou numa República, enfim. Civilização, sociedade, cidadania

— Quantas piadas de português! E mais esta: a Democracia não pode existir sem cadeia, mas existe perfeitamente sem justiça.

Naquele momento, um vulto avermelhado apareceu atrás do portão, na calçada oposta, e começou a crescer, tomando a esperada forma feminina, enquanto cruzava a rua.

— Boa tarde.

— Chegou mais cedo hein!

— Alcancei a minha meta — explicou a mulher de vermelho.

Parecia feliz. Conferiu se havia certa correspondência infalível na caixa e, com o envelope bem firme nas mãos, disse

— É dele!

— Dele quem?

— Dele não! Da empresa, seu Alencar. Da empresa de cosméticos para a qual presto consultoria.

— Sei…

— É verdade. Posso dizer ao senhor que estou numa ótima fase.

— Graças a Deus minha filha.

Descompensada, ela chorava e atormentava o mundo. Insuportável nos maus momentos. Quando estava bem, falava sem parar (e atormentava o mundo)

— Tenho grande oportunidade de conquistar o Astra!

Era consultora da Mary Kay. O carro, naturalmente, era rosa choque.

Dayane, a inquilina atual, alugava o anexo. Dividia o corredor externo, a varanda e a caixa da correspondência com o senhorio viúvo, herói da Guerra Colonial Portuguesa, um aposentado que desenvolvera um senso crítico enorme (ranzinzice para quem aguentava e tinha falta de senso crítico). Seu Alencar, naturalmente, desconfiava da Neurolinguística empregada pelos juristas, pastores pentecostais e vendedoras de quinquilharias.

— Até logo, disse a inquilina. Dayane conhecia muito bem as antipatias do veterano. Jamais ousaria dizer novamente alguma frase da grande Mary Kay Ash na presença dele. Num dia em que esta escapou

— Sua atitude determinará sua altitude

o velho se comportou pessimamente. Organizações assim, o Alencar colocava no mesmo nível da PAIGC, do Sendero Luminoso, da Al-Qaeda e das Farc. Menos uma cliente potencial, minha Lady!

— Vai com Jesus, Maria e José

que eu sei muito bem quem é ele! O sujeito que está para sair da cadeia. Bom comportamento… Vai com os diabos, minha Lady! Vai com os diabos!

— Entender a razão… Por que se matam por nossa causa? E nos matam por alguns trocados. Entender pra quê? A desfiguração do diálogo e a morte da comunicação: eis a melhor escolha. Bem melhor que a desfiguração do corpo

(agora, indeciso, as mãos cravadas nas duas rodas laterais)

no final das contas, cada um deve falar de um assunto nesta Babel moderna. É preciso não entender para que ninguém se descubra prisioneiro num domingo ensolarado — amanhã, por sinal, é sábado e o marginal convertido, que morava lá nos fundos e assaltou a minha padaria, vai receber a mulher do tailleur encarnado em dois dias —

(moveu a roda direita e girou a cadeira)

quando é dia de visitas, até mesmo o visitante está um pouco encarcerado e o preso (o “amor de mãe” é incondicional!) experimenta relances de liberdade.

(a rampa que dava acesso à sala de estar era de ferro e lembrava muito as rampas das embarcações utilizadas na guerra vencida na juventude)

— É preciso não entender as razões que levam um velho sobrevivente a perder outra guerra, em outro país, quase no fim da vida. Imagino a Dayane, de vermelho, cheia de pins na lapela, atravessando aquele pátio. Seis meses atrás, começou a ler os panfletos do marginal que me colocou nesta cadeira. O antigo inquilino. Sim. O desentendimento é mais necessário porque as emboscadas simplesmente não têm lógica

(no meio da sala, existia um velho tapete prendedor de rodas)

— Bandido.

Apesar das grades (e das tatuagens naïf), deve persistir a dúvida sobre quem está fora e quem está dentro. O conteúdo mais profundo das almas humanas dificilmente se expressa de verdade em qualquer encontro. Na superfície, uma confusão real: encontros ou desencontros? O fato é que só servem à cosmetologia do isolamento. Esse terrível isolamento no qual cada homem ou mulher precisa se instalar nos dias de hoje.

por André Ferrer

C. Mota, SP, 22 de janeiro de 2012

CONTO – Qualquer extravasamento

janeiro 22, 2012

Aprendera a reservar as coisas de que mais gostava para fazer entre as 17 horas e o momento de ir para a cama. Espécie de antídoto contra a depressão.

Ultimamente, o homem variava os prazeres e, embora pressentisse que algumas coisas tornavam-se ineficazes, jamais considerava a possibilidade de ser um fã de reality shows. Por isso, guardava para as horas críticas o maior e mais poderoso de todos os prazeres: a leitura de histórias à beira da cama do filhinho.

Em um dia assim, naturalmente (sem discussão, o dia mais penoso de toda a semana), ele caprichava. Conseguia se proteger do clima que piorava muito por causa da esposa: ela teimava em viver a rotina dominical (em toda a sua plenitude) aos domingos.

Era difícil para ele. Tinha que suportar quando acontecia de algo sair errado. A paz de uma noite valia mais do que um extravasamento egoísta, portanto

controle-se! — ordenou a si mesmo. — Ninguém tem culpa se o pequenino, hoje, dormiu mais cedo.

Ouvindo a música do Fantástico interrompida pelo programa seguinte, o homem ameaçou deixar o sofá, porém, mais rápida, a mulher encolheu o corpo e transformou as pernas dele em almofadas. Imobilizado, o homem pensou que a leitura de histórias também servia para manter ambos, ele e a criança, longe da televisão.

— Amor.

— Diga mulher.

— A água. Como eles conseguem que ela fique tão azul?

— O revestimento da piscina. Deve ser isso

(inspirou)

e também a limpeza que o exército invisível de piscineiros, faxineiros, jardineiros e contrarregras faz quando as câmeras olham para outros ambientes da mansão.

(Expirou.) Era-lhe penoso saber que a mulher caia naquele engodo. Acreditava que uma piscina, um jardim, uma casa imensa, podia ficar impecável durante três meses?!

— O que foi?

— Nada mulher. Devo estar com soluço por causa da mudança brusca da temperatura

e também deve ser ojeriza — pensou.

— É — disse a mulher. — Acho que vai chover de madrugada. Vi uns relâmpagos agora pouco enquanto recolhia as roupas.

— Nossa!

— O que foi?

— Temos que cobrir a piscina!

A mulher ficou séria. Tinha suspeitado de um registro qualquer na respiração do homem. Desconfiava que o marido estivesse prestes a se tornar irônico, a criticá-la por assistir ao Big Brother Brasil e por gostar tanto daquele universo vazio

piscina… Eles não tinham sequer uma banheira em casa. Guardavam grana, sim, mas era para outro luxo: um cruzeiro de três dias entre Santos e Rio de Janeiro, sem previsão para acontecer, nem de mês nem de ano, a ser, naturalmente, financiado.

— É brincadeira mulher. É brincadeira. Vamos assistir ao programa e depois: para a cama!

(inspirou)

o que, também, significava dizer: paz e amor, querida, porque logo mais estaremos aquecidos e eu desejo, sinceramente, que não haja nada para nos atrapalhar. Afinal de contas, a paz de uma noite vale mais do que qualquer extravasamento.

(Expirou.)

Duas horas depois, na escuridão aquecida do quarto, ele não conseguia dormir.

Quando terminaram (trinta minutos antes, mais ou menos), ele apertou ela nos braços (aquela mulher cheia de vontades absorvidas do mundo) e pensou, violentamente, que até podiam ter uma piscina lá atrás no quintal; uma piscina real, que lhes daria um trabalho de verdade; uma piscina concreta e cheia de necessidades tão especiais quanto aquelas impostas pelo filho pré-escolar; uma razão (ou melhor: uma outra razão), enfim, para viverem juntos. No lugar de um cruzeiro, uma piscina; uma piscina em que os insetos mortos, as folhas amareladas e toda sorte de lixo acumulasse depois das ventanias

e os gastos — pensou (a chuva, o vento e os trovões correndo soltos lá fora) — e os gastos com os produtos e todo o resto também serão bem reais.

Abriu os olhos perto da hora de levantar. Cedo demais para lançar mão de qualquer artifício antidepressivo naquela segunda-feira. Tratou, então, de correr para que logo ficasse tarde e saiu.

As folhas agonizantes pareciam mais verdes, caídas, coladas ao cimento da calçada logo depois da chuva. O pé de vento (a força que desprendera as folhas do suprimento de seiva e vida) estava diminuído quando ele cheirou as ervas no ar do novo dia e deixou a casa

bom lugar — disse ele consigo mesmo — bom lugar de onde nunca sair.

Naquela manhã, os aconchegos do seu esconderijo ficavam atrás da porta, separados dele pelo portão, a vinte, a cinquenta metros dali, passados e perdidos, lá no final da rua. Eram boas lembranças da noite. Lembranças que provocavam dor.

por André Ferrer

C. Mota, SP, 15 de janeiro de 2012