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CONTO – Bem alinhado

novembro 23, 2011

Debaixo de uma copada, na semiobscuridade, havia dois homens fardados. Ao menor sinal de motor, afastaram-se da rua e aguardaram que o veículo se aproximasse.

— Gol.

— Pare com isso. Eles vão enxergar a gente!

— Depois dessa curva?! Impossível. E também tem as árvores!

Realmente, a localização e o formato daquele bosque eram perfeitos. Asseguravam o fator-surpresa tão necessário ao projeto da dupla.

O automóvel passou e um dos homens abandonou seu abrigo. Braços abertos, atravessou a rua na diagonal. Parecia tatear o caminho que se projetava sobre a cidade. A certa distância, muito cauteloso devido ao terreno acidentado, ele deu as costas para o desfiladeiro.

— Não falei? — disse cuidadosamente.

— Volte aqui!

— Não falei? — repetiu, a voz um pouco mais nítida, mas cautelosa, como se as palavras também pudessem conduzir a um abismo.

— Deixa de palhaçada — o outro mandou. Parecia irritado. A um passo de exercer toda a sua autoridade.

— Gol! — festejou o primeiro. — Acertei! Era Gol! Só pelo barulho do motor conheci.

Atrás dele, morro abaixo, as luzes da cidade bruscamente apagadas pela mancha negra da Guanabara. Mais acima e ao lado, como se fosse um cupinzeiro infestado de vaga-lumes, uma das muitas favelas do Rio de Janeiro.

Esse labirinto, essa gigantesca sobreposição de barracos iluminados, poderia ser tocado com as mãos. Parecia distante, mas ficava logo ali, do outro lado de um caminho íngreme, a contornar a base do morro, que ficava lá embaixo num ponto praticamente invisível do arvoredo. Mais adiante, a rua começava a subir, ziguezagueava e saía do meio dos barracos para fazer uma curva fechada em rampa, logo depois de uma parada de ônibus, entre um paredão rochoso e a ribanceira. Só depois dessa curva, num platô escavado na lateral da montanha, o caminho ficava plano e o arvoredo, que tomava o lugar da rocha e do penhasco, ladeava o terreno elevado até um pouco adiante, quando a claridade urbana reencontrava os blocos do calçamento e a rua começava a descer sobre a cidade.

Ideal como esconderijo às cinco e meia da manhã, o bosque tinha sido eleito para o trabalho que os dois homens deveriam fazer.

— Volte aqui! Deixa de palhaçada e me ajude com as garrafas.

— Ouça!

— Não é nada. Cale essa boca e trabalhe!

— Tudo bem. Estou indo.

Quando se aproximou, trouxe um desalinho gritante, que o chefe ainda não tinha notado.

— Abotoe a farda malandro! Que negócio é esse, aqui, cheio de caretinhas desenhadas na camiseta?!

— Bad boy! Nunca viu?

— Claro que sim! Tá pensando, agora, que é bandido da Zona Sul? Eh! Eh! Eh!

Durante a conversa, os dois homens enchiam quatro garrafas de refrigerante com a gasolina de um galão de cinco litros.

— Você tem razão. Fecho sim. Fecho sim. Não vamos jogar a culpa nos pitboys.

— Ou pior: estragar o disfarce antes que o coletivo estacione!

— Nem fale. Já chega ter suado a beca na caminhada. Nosso morro é longinho hein cumpadi! Além do mais, fico uma besta-fera se derrubo gasolina nos trapos!

— É agora!

— Vamos ver…

— Diga, homem, se o nosso ônibus vem aí! Diga!

Enquanto escutava, o especialista em motores descreveu o avanço do ônibus ao redor do morro, a parada no ponto (Vai lotar hein! Cheio de trabalhadores!) e a marcha pesada no início da ladeira.

— Depois que eu subir, impeça o motorista! Não permita que ele feche a porta e arranque! — mandou o chefe com as mãos na cintura, fazendo pose de policial. — Vamos! E não vá esquecer de abotoar a farda!

Imediatamente, segurando as garrafas de PET cheias de gasolina, posicionaram-se a fim de interceptar o veículo.

— Você tem razão. A camuflagem de PM já tá manjada. É melhor prevenir. O motorista pode até desconfiar e tocar em diante… Se até os danados daqui, no dia que botaram fogo nos nossos, utilizaram o disfarce de polícia! Melhor prevenir.

No meio da rua, com os faróis no seu rosto, ele depositou as garrafas no asfalto, atrás das pernas unidas, e abotoou a farda meticulosamente.

CONTO – Falta um

novembro 23, 2011

Enquanto a sua mãe preparava o almoço, ele mexia no rádio. Em poucos minutos, a caminho do canavial, estaria no velho ônibus que carregava os trabalhadores.

— Não seja besta moleque! Para essa chiadeira! — pediu ela. — E vê se sintoniza direito a Cabiúna!

— Tou procurando mãe… Tou procurando — disse o rapaz evasivamente.

Estava na janela. Uma janela de duas folhas, aberta para o novo dia.

Único meio pelo qual o frescor da madrugada e os primeiros raios do Sol podiam entrar, aquela janela era o componente mais colorido da casa. Um barraco, na verdade, construído com sobras de madeira, retalhos de lona e pedaços de velhos “outdoors” doados por um sucateiro.

Antes de sair, ele sempre olhava o amanhecer. Gostava uma enormidade daquilo! A paisagem dali, segundo o seu pai explicara, chamava-se invernada. Muito parecida, o rapaz sabia, com o céu dos vaqueiros, peões e montadores que tanto lhe trouxera consolo nos piores dias da sua vida!

Mexia no aparelho. A mãe enrolava uma tira de pano na marmita amassada. Estações de São Paulo e do Rio vibravam na minúscula caixa; vozes misturadas, que se abalavam até do estrangeiro!

E daquilo tudo, ele também adorava uma enormidade!

Certa vez, até mesmo escutou a gaita do Teixeirinha! Seu pai tinha sido fã do cantor. Explicara-lhe uma porção de coisas sobre os gaúchos. Homens fortes e corajosos, que um dia, na época da mocidade dele, o seu pai, tinham-no contratado para cuidar de uma fazenda “cheinha” de bois.

O locutor falava português. Anunciou o sucesso “campeiro”, mas o rapaz não entendeu a metade. Guampa e Guaíba, por exemplo, era palavras das quais o seu pai não havia falado. Já guri, sim; guri era como o seu pai chamava os irmãos menores.

Também naquele dia, o aparelho chiou numa confusão de sinais sobrepostos. O rapaz olhou para fora, sintonizou a emissora local e levantou o volume para que a sua mãe escutasse.

— Melhorou! — disse ela, durante a introdução da música. Depois emendou, cantando animadamente: — Fiz uma casinha branca lá no pé da serra pra nós dois morar.

“Fica perto das barrancas

“Do rio Paraná.”

E assim por diante.

Quando a canção terminou, a comida do jovem cortador de cana estava devidamente embrulhada.

— Eu já vou! Eu já vou! — disse ele nas duas vezes que a sua mãe insistiu.

Fechou a janela com muito custo. A imagem do vaqueiro, na parte interna de uma das folhas, apareceu; como plano de fundo, uma paisagem muito parecida com a invernada, só que bem mais bonita. Para o rapaz, o próprio Éden do catecismo!

— Tá na hora, filho, de você pegar o ônibus! — fez a mãe. — O gato tá no teu pé! Você não pode chegar atrasado!

As duas crianças da casa, que àquelas horas ainda estavam deitadas, acordaram por causa dos gritos da mãe.

O menor, que ainda não se acostumara com a ideia de ver apenas os quatro ali reunidos, perguntou a ela como às vezes fazia:

— E o pai mãe?! Tá onde o pai?!

O maiorzinho, que melhor entendia os frequentes esclarecimentos do irmão mais velho, adiantou-se repreensivo:

— Lá no mundo de Marlboro! Lá no mundo de Marlboro!